quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ezequiel e o vale de ossos

A mão do Senhor se apoderou do profeta Ezequiel e o transportou em espirito, e o pôs no meio de um vale que estava cheio de ossos. E o fez andar ao redor deles; e eram mui numerosos sobre a face do vale, e estavam sequíssimos. Então lhe disse o Senhor: “Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel: eis que dizem: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança: nós estamos cortados.” Ez 37: 1, 2, 11.
Se retrocedermos no tempo, e analisarmos todo o historial de Deus com a sua criação, inevitavelmente chegaremos à conclusão que o relacionamento dos dois, quase sempre esteve muito longe de ser um romance. Desde muito cedo o ser humano escolheu desobedecer ao seu criador, afrontando-o seguindo outros deuses, cometendo toda a sorte de abominações. Já desde o Éden, que a criatura decidiu optar pelo lado do inimigo e corrompeu-se de tal forma, que o Senhor determinou pôr termo a tudo quanto havia criado com as águas do dilúvio, selecionando apenas oito pessoas: Noé e sua família, assim como alguns representantes das várias espécies animais. Com estes elementos de novo povoou toda a terra, todos os humanos falavam uma mesma língua e empregavam-se as mesmas palavras até ao momento em que de novo desafiaram o Senhor, construindo uma torre cujo cume tocasse nos céus, ao perceber Deus, que não havia limites para a perversidade humana, decidiu confundir-lhes a língua para que não mais se pudessem entender.
Mais tarde o povo do Senhor foi feito escravo no Egipto e ao presenciar tamanho sofrimento libertou-o com mão forte através do seu servo Moisés, ao caminhar pelo deserto prevaricaram, cometendo todo o tipo de abominações: “murmuraram contra Deus, prostituíram-se e inclinaram-se perante um bezerro de ouro, por tudo isto, toda uma nação pereceu no deserto à exceção de Josué e Caleb e a geração nova.” Nm 14: 30, 31.
Depois que o povo hebreu se estabeleceu na terra prometida, os atritos foram sempre constantes, usando Deus sempre de todos os recursos possíveis e imaginários, desde juízes, profetas, reis, sacerdotes e por fim o seu próprio Filho para reconciliar o mundo consigo próprio.
No tempo do profeta Ezequiel, o povo havia chegado ao mais baixo nível, ao ponto de Deus o classificar de ossos secos, estavam pior que mortos, já não tinham carne, não tinham nervos nem pele e muito menos espírito, e até mesmo os ossos estavam todos misturados.
No meio da visão o Senhor embaraça o profeta com esta pergunta: “Filho do homem, poderão viver estes ossos?” Desconcertado ele responde: “Senhor Jeová, tu o sabes.” Ez 37:3.
Em termos comportamentais, o que se poderá pensar também da igreja através dos séculos até aos nossos dias? Infelizmente sua capacidade de resposta em relação a tudo o que o seu Senhor tem feito por ela deixa muito a desejar. Já o apóstolo S. Paulo teve sérios problemas com a igreja de corinto, escrevendo o seguinte: “Geralmente se ouve que há entre vós prostituição, e prostituição tal, qual nem ainda entre os gentios, como é haver quem abuse da mulher do seu pai.” I Cor 5:1. “Nisto porém, que vou dizer-vos, não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior.” I Cor 11:17. “ Não sabeis que os injustos não hão-de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores, herdarão o reino de Deus. E é o que alguns têm sido…” I Cor 6:9-11.
No tempo do profeta Ezequiel o povo de Israel estava disperso e em cativeiro por causa de suas abominações contra o Senhor Deus, embora fossem religiosos, o fruto de sua conduta espiritual era mau.
Enganamo-nos ao pensar, que o simples facto de sermos religiosos fervorosos isso é o quanto basta para se agradar a Deus. Ele não se ilude com nossa aparência, exige de nós verdade e coerência com sua santa palavra.
A nação de Israel é representada ao profeta por um vale de ossos secos. Hoje a igreja, que é o povo de Deus, como classifica-la, quando sua conduta é oposta à vontade do seu Senhor?
Não quero ser juiz de maus pensamentos, mas gostaria que se fizesse uma análise imparcial à igreja do nosso tempo, para vermos se de facto ela também não se encaixa no mesmo vale de miséria. Tem aparência de que vive, mas está morta, por cometer também toda a sorte de abominações, quer por palavras, quer por ações. O povo anda errante, guiado por falsos profetas, que só falam mentiras ou aquilo que agrada aos ouvidos. Fico deveras impressionado ao pensar, como é possível, num mundo tão informatizado, haver tanta falta de formação moral, assim como espiritual.
Num dos textos de ouro das escrituras lemos o seguinte: “Porque Deus amou o mundo, de tal maneira, que deu o seu Filho único, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” João 3:16. Isto significa, que Deus do melhor que possuía dedicou sem reservas e incondicionalmente ao mundo. No entanto como retribuição, aquele que é chamado de vigário de Cristo na terra, dedica a humanidade a Maria. Jesus é sacrificado em nosso lugar por causa dos nossos pecados, mas é Maria quem recebe os louros.
Disse Jesus: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim.” João 14:6. Mais uma vez Maria é elevada, e fazem dela medianeira e corredentora.
Ignoram desta forma o escrito de S. Paulo que diz: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” I Tm 2:5.
Não quero de forma alguma subestimar os méritos de Maria no seu tempo, simplesmente hoje está deslocada no tempo e no espaço, e estou certo que se de alguma forma ela pudesse intervir, poria fim a tanta mariolatria, e proferiria novamente estas palavras: “Fazei tudo quanto Ele vos disser.” João 2:5 e somente o que Ele disser.
O facto de Maria ter achado graça diante de Deus, isso não nos dá o direito de lhe conferirmos atributos que só ao Filho de Deus compete, disse Ele: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu.” João 3:13.
A igreja quando ignora as escrituras, cai nestes erros crassos de inventar deuses e criar dogmas que se tornam abominações perante o Criador do universo.
Quanto às igrejas reformadas, também entre elas não há senso comum, é da praxe seus fiéis membros usarem uma Bíblia, mas seus líderes proferem dos púlpitos indesculpáveis erros doutrinários, reivindicam para si a posse do Espírito Santo e os dons espirituais, desvirtuam os santos sacramentos, e da palavra que é espírito e vida, reduzem-na a um mero código de boa conduta moral e espiritual. Em termos escatológicos especula-se induzindo os fiéis em erro.
Estou certo de que a Igreja da era moderna é bem representada pelo vale de ossos. Uma igreja que assim procede está ressequida, pois o espírito do Senhor se ausentou. Quero salientar que o Israel do tempo de Ezequiel nos leva vantagem, já tinham chegado ao ponto de reconhecer, que por causa de suas abominações estavam cortados.

A igreja do Senhor necessita de reconhecer seu estado lastimável de abominações, idolatrias, heresias e dogmas forjados, para que Deus se compadeça e lhe dê o seu Espírito de vida, para que no dia derradeiro não sejamos todos cortados.


sábado, 5 de julho de 2014

A voz dos que vivem na sombra

Certo dia fez Jesus um amistoso convite, dizendo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” Mt 11:28
Apesar da aparente abrangência, o convite é muito restrito e selectivo. Quando Jesus usa o termo, todos, ele apenas refere-se aos cansados e oprimidos e não a todo o género humano, pois existe sempre aquela casta de fariseus, que confiam em si mesmos, crendo que são justos, que não se cansam de exibir suas virtudes e dons, têm tanto para dar que de Deus nada precisam receber, no entanto desprezam os outros.
É certo que o meigo Mestre, em seu discurso não está a referir-se ao natural cansaço de um árduo dia de trabalho, nem da opressão normal das circunstâncias da vida. O Filho de Deus encarnou-se para levar sobre si as nossas dores e iniquidades, libertar-nos do pecado e do diabo, vencer a morte e o inferno, ser a voz dos que vivem na sombra e a todos dar a vida eterna.
Jesus tinha uma sensibilidade, toda ela especial para lidar com os que viviam na sombra, vítimas de preconceito e escrúpulo, eram marginalizados e considerados imundos. Para estes o dócil Senhor sempre tinha uma palavra amiga, confortadora e portadora de vida. Nunca foi seu propósito, esmagar a cana quebrada nem apagar o pavio que fumega, antes pelo contrário, quando alguém lhe clamava, ele perguntava: “Que queres que te faça?” quando abordado por um leproso disse-lhe: “eu quero que fiques limpo.” Ao ver um paralítico em dificuldade perguntou-lhe: “queres ficar são?” Depois de tudo isto o que mais me impressiona é quando Jesus caminhando apertado pela multidão, ele consegue distinguir o delicado toque de uma mulher que há muito tempo sofria de um fluxo de sangue.
Os habitantes de sombra apenas conhecem um slogan favorito: “Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós.” Lc 17:13.
Não vou alongar-me com o meu discurso, pois desta vez tenho em mãos, um texto de autor anónimo, cujo conteúdo pode parecer revoltoso contra Deus, não se escandalizem, há revolta sim, mas contra aqueles que acham que amam a Deus e que no entanto aborrecem o seu próximo, o mesmo pode também muito bem representar o clamor de todos quantos vivem na sombra em nossos dias, vítimas de preconceitos e religiosidade aparente, baseada apenas em rituais domingueiros.

“Perdoem-me se estas palavras se vão tornar, de certa forma ofensivas, mas preocupa-me o facto de haverem pessoas mais ocupadas em apontar os pecados dos outros, esquecendo-se que Deus irá pedir contas dos seus pecados e não do que elas sabem do pecado dos outros. Mas, já que se usa da liberdade para expressar opiniões via redes sociais, porque se está nesse direito, eu também vou expor a minha.
Eu não vou nomear uma lista de pecados abomináveis perante Deus e, especialmente, perante Cristãos que se dizem conhecedores da Bíblia. Aliás, acho que os Cristãos se demonstram muito mais constrangidos com certos “pecados” que o próprio Deus, o único que pode julgar tais questões. Além do mais, é irrelevante nomear pecados, até porque, perante Deus, não há pecado maior ou menor, pelo que só gastarei “o meu latim” se tentar ordená-los. E nem me vou dar ao trabalho de rebater o que quer que seja com versículos bíblicos. Basta ver que o próprio Jesus foi tentado com a Palavra de Deus. E, já que o Diabo também usa a Palavra para conseguir o que quer, eu vou aproveitar para dar voz à minha humanidade e Jesus, melhor que ninguém, para compreender, porque Ele já esteve no meu lugar.
Fico com a sensação que o Cristianismo tem-se tornado como aquele que se diz ser humilde mas, que ao dizê-lo, deixa de o ser, visto que, quem é humilde, não tem necessidade de clamá-lo aos quatro ventos.
Há coisas que não dizem respeito à curiosidade alheia. Eu não admito, por exemplo, que opinem sobre a minha conta bancária. Aliás, nem o meu melhor amigo me diz o dinheiro que tem em conta, e eu a ele! Assim como eu espero não vir a descobrir que há pessoas interessadas em bisbilhotar o que faço ou deixo de fazer entre quatro paredes. Desde que a minha liberdade e privacidade não interfira com a do meu vizinho, o sentir-se incomodado tem mais a ver com a falta de respeito e, com certeza, com ideias pré concebidas que, normalmente, estão longe de ser verdade.
Não adianta virem bater-me na cabeça com uma Bíblia na mão. Isso mais parece exorcismo e, como disse acima, é tal e qual um arrogante que se diz humilde.
Quando se questionam certas situações que põem em causa a ética, há que não menosprezar outras situações quando se diz que Deus não comete erros. Ora, vejamos. Deus não comete erros. No entanto, há bebés, gémeos, que nascem ligados pelo tronco ou pela cabeça. Bem, Deus não comete erros, e deixar que a Ciência interfira na obra de Deus é o mesmo que dizer que Deus comete erros. Por isso, nem vale a pena tentar consertar aquilo que Deus não errou! Se uma das vidas estiver em risco, ou ambas, deixem-nas morrer. Afinal de contas, Deus não comete erros e, se for da vontade de Deus, eles sobreviverão, embora, por muita fé que eu tenha, não me pareça que, tendo sobrevivido, Deus as vá separar! Havendo possibilidade de um deles sobreviver, ou ambos, mas com intervenção cirúrgica, e sendo impossível fazê-lo, porque Deus não comete erros, pergunto-me quem será tido por responsável, caso não sobrevivam!
Mas, vamos imaginar que esses bebés têm condições para viverem ligados. Bem, Deus não comete erros e, ao que parece, a qualidade de vida é uma questão menor, comparada com a questão física, que, ironicamente, é base para todos os equívocos da aparência! Ora, sendo seres humanos “normais”, que todos o dirão para que não se sintam diferentes dos demais, penso que é de esperar que essas crianças, tornando-se adolescentes e, depois, adultas, terão que partilhar cama, refeições, idas à casa-de-banho (não me perguntem como seria, caso fossem de dois sexos diferentes em casas-de-banho públicas!), idas a concertos versus estar em casa, etc. E, já que são pessoas normais, também é de esperar que ambas, ou, pelo menos, uma delas, se apaixone. Enquanto todos os outros, que dizem que esses dois seres são iguais a eles, porque razão uns têm direito a uma dignidade e a serem felizes e outros não? Será que, neste caso, deverão partilhar namorados e namoradas e, quem sabe, ter sexo na mesma cama a quatro? Ou seremos nós capazes de lhes impingir o não-amor e a não-realização só para que não infrinjam os tais “mandamentos de Deus”? Sim, porque Deus não comete erros e acender a luz no fundo do túnel para estas pessoas é impensável, porque é o mesmo que dizer que Deus é incapaz.
A vivência neste Planeta também nos tem permitido ver que há pessoas que nascem com dois sexos, os tais hermafroditas. Bem, mais uma vez, Deus não comete erros, e Ele criou Homem e Mulher à sua imagem. No entanto, devido a alguma aberração da Natureza, há seres humanos (ou serão outra coisa?) que nascem com duas genitálias, pelo que se torna difícil definir. Mas, como Deus criou Homem e Mulher, até à bem pouco tempo, nestas situações, os pais podiam decidir qual o sexo da criança. Na maioria dos casos, a genitália que aparentasse ser a mais prevalecente, seria a escolhida. Provavelmente, nesta situação, muitos Cristãos abririam uma excepção ao “Deus não comete erros” e, já que Deus criou Homem e Mulher à sua imagem, a Ciência pode interferir. Engraçado como, para estas coisas, os pais tenham poder de decidir se uma criança é menino ou menina, mas no caso da salvação pelo Baptismo, eles não tenham esse poder de decisão! Sim, porque hoje em dia, no caso do hermafroditismo, já se permite que a criança, uma vez adolescente ou adulta, decida a qual dos sexos pertence. Ora, quando ainda os pais decidiam o sexo do seu filho, houve casos em que o género do cérebro e o sexo físico não combinavam, levando estas pessoas à loucura, depressão e má qualidade de vida por não se identificarem com o género físico.
Deus não comete erros! E, no entanto, milhares de crianças continuam a nascer e a morrer à fome em África. Se Deus não comete erros, sabendo Ele que é incrivelmente difícil sobreviver em África, porque continua Ele a permitir que nasçam crianças lá?
Deus não comete erros. E, no entanto, continuam a nascer crianças deficientes que alteram por completo o sistema familiar de um grupo, para que esse novo ser se possa adaptar e ser o mais autónomo possível. Espera! Deus não comete erros. Portanto, todas as soluções criadas pela Ciência não são para ser aplicadas.
Deus não comete erros. Há uma séria de transformações genéticas que reproduzem alterações no desenvolvimento. A acção do ser humano tem providenciado isso, o que me leva a crer que, afinal, a culpa é nossa. Continuam a nascer crianças com doenças congénitas, outras com sérios obstáculos na interacção com os seus semelhantes, etc. Basicamente, só quem está lá é que sabe. Não podemos julgar a forma como uma pessoa tenta resolver uma situação, muito menos pôr em causa a sua fé se ela, na sua honestidade, tenta fazer o seu melhor, enquanto outros pregam, e até praguejam, em nome Deus e de todos os santos possíveis e imaginários para que essa pessoa se redima. Às tantas, ela é a única pecadora e não sabe! Mas, espera. Deus não comete erros. O ser humano os comete. Ah, pois! Mas Deus escreve recto sobre linhas tortas! E, então? Anda o cão atrás da cauda, pois é!
E esqueçam essa ideia de paninhos quentes de quando dizem que amam o pecador, mas odeiam o pecado. Quem és tu, pecador, para me dizeres a mim, pecador, que me amas, mas odeias o meu pecado? Serão os teus pecados menores que os do teu próximo? Não será ele responsável pelos seus pecados e tu pelos teus? Porque é que, em termos humanos, tu que nasceste “normal”, que dizes tratar o outro por “igual”, tens o direito de te apaixonares, amares, casares, teres filhos e morrer rodeado da família que tu criaste? (Sempre se pode sonhar!) Ou deverá o outro negar-se, fazer de conta que ama quem escolheu para formar família, achando que isso não irá afectar os demais, mesmo que eles não o saibam? Terão eles culpa do resultado da sua negação? Ou deverá ele negar que sente afecto por alguém, negar a vontade de constituir família, enquanto outros têm o conforto do seu lar? Espera! É perversão? É perversão amar? É muito fácil dizer ao outro que se negue a si mesmo e que carregue a sua cruz. Jesus disse-o, mas quem és tu para o dizeres ao teu próximo? Não terás tu que te negar a ti mesmo e carregar a tua própria cruz? Porventura, te compadecerias do teu próximo e negarias a tua família, casa e lar para que ele não seguisse esta caminhada sozinho? Se ser-se quem é for pecado, hipocrisia não o será também? Mas, se ambos são pecados, e ele não pode deixar de ser um sem que se torne no outro, não poderá ele decidir com qual deles conviverá melhor para o resto dos seus dias? Porque a consciência é dele, e a sua fé só a ele lhe diz respeito e a Deus. Caso contrário, a única solução é a morte, se é que a negação já não é, por si só, a anulação do próprio. ”


quinta-feira, 19 de junho de 2014

O pai do carpinteiro de Nazaré

A 19 de Março de cada ano comemora-se o dia do pai, sendo no entanto já falecido o meu há vinte anos, gostaria de poder tributar-lhe homenagem, escrevendo algo sobre um homem cujas palavras não foram dignas de ser registadas.
Este personagem tem-me intrigado por causa do seu silêncio, porque o mesmo parece estar recheado de sentido, propósito e até quem sabe de ensino para todos nós.
É impossível que ao longo de trinta anos José nunca tenha partilhado qualquer tipo de diálogo construtivo com o seu filho adoptivo. Durante todo esse tempo os dois partilharam a mesma casa, a mesma  mesa, a  mesma carpintaria, onde um era aprendiz, o outro o instrutor; e  em qualquer destes ambientes haver comunicação verbal é simplesmente natural, assim como numa relação tão chegada haver momentos marcantes entre pai e filho dos quais se pudessem recordar e alegrar.
Embora aos olhos dos evangelistas, tenham sido de pouca relevância as palavras de José, todavia suas atitudes não passaram despercebidas. Uma das características registadas por Mateus, é de que este homem era justo, com toda a certeza também temia a Deus, era conhecedor das profecias concernentes ao Messias e aguardava com todo o fervor a manifestação daquele que era a esperança de Israel, no entanto, longe estava de pensar que tudo isso iria acontecer no seu tempo e com a sua participação activa em todos os acontecimentos.
O pai do carpinteiro de Nazaré conhecia tão bem a lei do seu Deus, assim como os pensamentos e sentimentos do seu legislador. Bem-aventurada a família que ouviu dele as palavras que nunca foram escritas e o mundo que contemplou a nobreza dos seus feitos.
Era carpinteiro, mas procedia como se fosse um príncipe, os mais nobres palácios do seu tempo não eram dignos de que ele os pisasse com a planta dos seus pés. Em termos de serviço prestado a Deus, envergonha todos quantos enveredaram pela futilidade e inutilidade do celibato e vida monástica a pretexto de maior consagração a Deus. Nunca frequentou nenhuma faculdade, nem seminário teológico ou escola de rabinos, no entanto a todos nós dá uma grande lição, colocando ao serviço do seu Senhor, tudo quanto era e possuía. Perante tal grandeza de espírito, o mundo emudeceu e não houve palavras para o descrever. De alguém assim, é para mim privilégio, poder esquadrinhar nas entrelinhas, os pormenores, os gestos e atitudes que fizeram toda a diferença na vida daquele que se tornou o salvador do mundo.
José estava desposado com Maria, e esta achou-se grávida sem que ambos alguma vez se tivessem ajuntado, e não sabendo o que se passava, como bom judeu que era, tinha a lei a seu favor e poderia com toda a legitimidade expor a sua noiva ao apedrejamento por adultério, em vez disso e não a querendo infamar, intentou deixá-la secretamente. Um bom exemplo para nós, quando sem escrúpulos fazemos legítimo uso das leis apenas para satisfazer os ímpetos do nosso ego, sem nos importarmos com a humilhação do nosso próximo. Deus ao contemplar lá do alto a delicadeza da alma deste servo seu, enviou-lhe um anjo que em sonho lhe disse: ”José, não temas receber Maria tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo.” Mt 18:20. A partir daqui a vida deste judeu nunca mais foi a mesma e durante algum tempo da infância de Jesus, foi orientado por Deus através de sonhos.
Admiro a fé deste homem, enquanto Maria teve o privilégio de poder ver, ouvir e falar com o anjo, José somente recebia ordens enquanto estava a dormir e prontamente as obedecia com toda a precisão, tornando-se desta forma o salvador do seu próprio Senhor. Por estranho que pareça, por um pouco de tempo a vida do nosso redentor esteve dependente de um homem a quem ele também chamou de pai (Lc 2:28), caso contrário teria sido vítima do ódio de Herodes, na matança dos infantes de dois anos para baixo.
Ao meditar sobre os procedimentos deste filho de Israel, fico convencido de que um homem assim está à altura de preencher todas as expectativas de Deus. Não há qualquer registo de que o criador se tenha desiludido com o comportamento deste seu servo. Como cidadão cumpriu com os seus deveres cívicos deslocando-se da Galileia até Belém com a sua esposa já grávida, a fim de tomar parte num alistamento decretado pelo imperador romano. Como bom judeu não descuidou as suas obrigações religiosas para com o seu filho Jesus, circuncidando-o ao oitavo dia, e cumprindo-se os dias da purificação, José e Maria levaram o menino a Jerusalém para ser apresentado ao Senhor, levando a cabo dessa forma o que está escrito na lei: “Todo o macho primogénito será consagrado ao Senhor.” Lc 2:21-23.
Lamento  que, em muitos casos, alguns cristãos descuidem os seus deveres cívicos, assim como as suas responsabilidades de pais crentes, achando que é nobre e moderno retardar o baptismo dos seus filhos, para que quando forem adultos, sejam eles a decidirem aquilo que querem ser.
Como bom marido, honrou a sua esposa dando-lhe fartura de filhos. Na cultura judaica era honroso para a mulher ter filhos e era sinal da bênção de Deus. Naquela época a esterilidade feminina era muito comum. Também está escrito no livro dos salmos 127 que diz: “Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava.” Convém salientar que Jesus ao ser privilegiado com tão vasto número de irmãos e irmãs (Mt 13:55, 56) isso dotou-o de um excelente equilíbrio emocional assim como psicológico. Estou certo de que ele deveria ser uma das pessoas mais felizes do mundo pela grande família que possuía.
Para além de protector e trabalhador, José também preocupava-se com a instrução espiritual da família, está escrito: “E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens.” Lc 2:59. Nada disto seria possível se não houvesse um pai à altura.
Caro leitor, não desejo que me interprete mal, mas depois de tudo o que já foi escrito, permita-me este desabafo: nenhum ser humano deveria abster-se do matrimónio, a menos que para isso Deus o tenha especialmente dotado, pois é a mais alta instituição divina sobre a face da Terra, nenhum casal deveria privar-se de ter filhos e muito menos privá-los de terem irmãos.
Por mais que as dificuldades nos oprimem e o mundo se corrompa, é nosso dever como cristãos povoá-lo com os nossos filhos instruídos na palavra do Senhor, para que de todo ele não se torne um inferno. Podemos também argumentar, que os nossos filhos não precisam de irmãos, porque no colégio, no jardim-de-infância ou nas escolas podem ter muitos amigos, sim é verdade, mas nunca serão irmãos, ao passo que irmão sempre poderá ser mais que amigo. Irmão muitas vezes pode xingar, incompreender, e até criticar, mas na hora difícil dá-nos a mão, o amigo muitas vezes é só para a ocasião.
Cresci num lar de sete elementos e fui feliz.

Eu e a minha esposa não conseguimos encher a nossa aljava de filhos, mas os que temos são a maior dádiva do Criador.


domingo, 8 de junho de 2014

A Festa do Pentecostes

A festa do Pentecostes é a segunda das três grandes festas anuais a que devia comparecer todo o povo de Israel. Era assim denominada por ser observada no quinquagésimo dia depois da Páscoa. Conhecida também como a festa das semanas ou festa das primícias. Nesta festa, toda a colheita era dedicada a Deus, quem a dera.
Assim como a Páscoa passou a ter para nós cristãos, um novo sentido, por nela Jesus haver triunfado sobre o diabo, o pecado e a morte, também no dia do Pentecostes quando todo o povo se deslocava a Jerusalém para esta grande festa, Deus derramou do seu Espírito, cumprindo desta forma a profecia de Joel, assim como a promessa de Jesus que disse: “Se me amardes, guardareis os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; o Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.” João 14:15-17.
Estas grandes festas do povo de Israel, celebradas no passado, eram apenas figuras dos grandes feitos do Senhor no futuro. Outrora representavam coisas terrenas e temporais, agora coisas espirituais e eternas. Aquilo que antes era passageiro, hoje tornou-se para nós cristãos, parte integrante de nossas vidas.
Não deveríamos celebrar a Páscoa, se não cremos na ressurreição dos mortos, na remissão dos pecados e na vida eterna. Também é inútil festejarmos o Pentecostes se o Espírito Santo não habita em nós, santificando nossas vidas, orientando nossos pensamentos e comportamentos.
Na nossa cultura açoriana, quando se fala de Pentecostes, associa-se o termo às solenes festividades em louvor ao “Divino Espírito Santo”, onde o povo desfila pelas ruas com coroas, ceptros e estandartes alusivos à terceira pessoa da trindade. Também em cada localidade existem impérios dedicados ao Divino, com suas comissões de mordomos. Quem nos visita e observa toda esta fervorosa devoção, certamente sente-se sensibilizado ao ver tamanha religiosidade. Mas será tudo isto o verdadeiro Espírito Santo de quem o Senhor Jesus nos fala? Falou Ele aos seus discípulos da seguinte forma: “Mas quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há-de vir. Ele me glorificará, porque há-de receber do que é meu, e vo-lo há-de anunciar.” João 16:13, 14.
No livro dos actos dos apóstolos está registado o que realmente aconteceu em Jerusalém: “E cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; e de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados… E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem… Todos os peregrinos estavam pasmados e maravilhados, pois ouviam os discípulos falarem das grandezas de Deus, cada qual na sua própria língua em que foram nascidos.” Actos cap.2.
Entristeço-me com a tremenda confusão existente no meio cristão, no que diz respeito à doutrina do Espírito Santo. Tenho observado que em muito daquilo que é pregado e praticado fica notório que muitos cristãos estão muito mal informados ou simplesmente desconhecem o assunto, sendo desta forma levados por outros ventos de doutrina. Desconhecem as escrituras e a arte de julgar os espíritos, afim de se protegerem das ciladas do diabo e honrarem a Deus com verdadeiro entendimento espiritual. O credo niceno também nos resume de forma simples aquilo que está claro nas citações bíblicas atrás citadas da seguinte forma: O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorificado. Logo toda a veneração e adoração isolada de tão nobre divindade são inadequadas e heréticas.
Para além de tudo o que já escrevi, gostaria de salientar a acção do Espírito Santo na igreja do primeiro século onde ele era predominante. Podemos observar de forma clara no livro dos actos, que a igreja crescia espontaneamente, caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja, aqueles que se haviam de salvar. Estou a falar de uma igreja, cujos líderes não tinham qualquer tipo de formação a nível universitário, ou mesmo de seminários teológicos, mas tinham o melhor dos professores. Disse Jesus: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.” João 14:26.
Não quero de forma alguma subestimar o valor das instituições universitárias e teológicas, somente lamento que se dependa demasiado delas em detrimento do nobre Ensinador, onde na maioria dos casos formam-se líderes de paróquias cujos templos estão cada vez mais vazios e os poucos que lá frequentam, apenas assistem ao serviço religioso por mera tradição e obrigação.
O que é feito do Espírito Santo em nossos dias? Será que Ele apenas existiu para a era apostólica? Disse o apóstolo S. Pedro à multidão que o ouvira pregar no ditoso dia: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo; porque a promessa vos diz respeito a vós a vossos filhos e a todos os que estão longe; a tantos quantos Deus, nosso Senhor chamar.” AT 2:38, 39.
“Pentecostes não pode significar extinção do Espírito Santo, ele é o fiel servidor da causa divina e as escrituras e a igreja e os santos sacramentos são os seus instrumentos. Auxilia-nos em nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir, como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós, com gemidos inexprimíveis.” Rom 8:26.
A igreja do século XXI não pode prescindir do Espírito Santo, só ele pode convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo.” João 16:8. Só ele consegue transformar simples diáconos como Estevão e Filipe em príncipes pregadores, destemidos e ousados. Estevão foi até às últimas consequências sendo morto à pedrada.
Uma igreja cheia do Espírito Santo, à semelhança de Estevão, fixaria seus olhos no céu e ele se abriria e contemplaríamos a glória de Deus e a Jesus Cristo que está à sua direita. Os cristãos da actualidade estão demasiado passivos, e a igreja do presente não irá muito longe com crentes domingueiros, espectadores de bancos de igreja, que nos demais dias são tão iguais aos que não têm esperança. Com razão disse Keith Green: “Cristo morreu de braços abertos, será que podemos viver uma vida espiritual de braços cruzados?”




quarta-feira, 28 de maio de 2014

O sábio mestre

Certo dia, perturbado com as minhas inquietações, consultei o sábio mestre, perguntando-lhe o que ele entendia por silêncio e invisibilidade. Olhou-me nos olhos como quem vê o que está para além da linha do horizonte, e respondeu-me com duas intrigantes perguntas, dizendo: “Meu filho, quantos surdos conseguem entender aquilo que não queres ouvir? E quantos cegos conseguem enxergar o que não queres ver?” Simplesmente emudeci, e pude perceber que a autopiedade e o egocentrismo, muitas vezes nos impedem de ver a miséria que nos rodeia, e de ouvir o clamor dos que sofrem mais do que nós.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O Homem, também, é carne

“Não contenderá o meu Espírito para sempre com o Homem; porque ele, também, é carne.” Gn 6:3
Consultei diferentes versões da Bíblia, sobre este texto das sagradas escrituras, mas o meu favoritismo recaiu sobre a versão revista e corrigida de João Ferreira de Almeida, não por causa do tradutor em si, mas sim pela abordagem detalhada das duas naturezas que compõem o ser humano. Não sou da opinião que a diferentes versões bíblicas, se opõem ou se contradizem, mas creio que algumas são mais claras e outras mais completas em seus textos, sem no entanto adulterarem o contexto geral do Livro Sagrado.
Para além do termo carne, também se referir à nossa realidade física, regra geral ele aparece na Bíblia, no sentido de que o ser humano tem uma inclinação natural para o mal, ou simplesmente significa fragilidade, conforme afirma Jesus: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação: na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” MT 26:41. Também no livro dos Salmos lemos o seguinte: “Mas Deus, que é misericordioso, perdoou a sua iniquidade, e não os destruiu; antes, muitas vezes desviou deles a sua cólera, e não deixou despertar toda a sua ira. Porque se lembrou de que eram carne, um vento que passa e não volta.” Sl 78:38, 39.
O texto bíblico de referência deixa bem claro o desalento do criador, a sua decepção em relação ao Homem que criou chegou ao extremo, e ao olhar para ele, somente via que a maldade se multiplicava, e que toda a imaginação dos pensamentos do seu coração era só má continuamente. E arrependeu-se de haver feito o Homem, e isto pesou-lhe em seu coração. Gn 6:1-6
Até então, segundo os registos bíblicos genealógicos, a média de vida do ser humano era muito alta, muitos homens viveram mais de novecentos anos, sendo Metusala o recordista, o qual era filho de um homem que se destaca em toda a genealogia pela sua breve existência, Henoch, apenas 365 anos, e não havendo registo da sua morte, dele está escrito o seguinte: “E andou Henoch com Deus; e não se viu mais; porquanto Deus para si o tomou.” Gn 5:24. Certamente este homem não conseguia enxergar mais nada na vida, ao ponto de Deus concluir que seria uma perca de tempo esperar que ele morresse, e assim permitiu que Henoch caminhasse com Ele até que se perdeu de vista. Algo de semelhante, também se passou com o profeta Elias muitos anos mais tarde. II Reis 2:1-11
Algo leva-me a pensar que a longevidade do ser humano era uma tentativa do criador, no sentido de que o homem tivesse tempo para se redimir, ou no mínimo ter a mesma atitude de Henoch, que não desgrudava do seu Senhor e alcançou testemunho de que agradara a Deus. Hb 11:5.
Agora sobre o texto inicial, importa realçar, que a maioria das traduções só transmite uma ideia, por exemplo: “Meu Espírito não permanecerá no Homem, pois ele é carne.” – Bíblia de Jerusalém. Não vou proteger o Homem por muito tempo. Ele é mortal.” – Versão ecuménica. “O meu Espírito não permanecerá indefinidamente no Homem, pois o Homem é carne.” – Missionários capuchinhos, edição de 1978. “O meu Espírito não continuará a ser desonrado pelo Homem, visto que todo ele é mau.” – O Livro – a Bíblia para Hoje, etc.
Aqui neste texto, João de Almeida destaca-se, através dos detalhes do seu texto dizendo: “Porque ele, o Homem, também é carne. E assim surge a dupla ideia de que o Homem não é somente carne.
Também no evangelho de S. Mateus, Jesus transmite-nos a mesma ideia: “E tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; e, chegando-se a ele o tentador disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães. Ele porém respondendo disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o Homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.” MT 4:2-4
A nossa realidade física não deve ser subestimada, no entanto é passageira e de pouco sentido se negligenciarmos a nossa realidade espiritual.
Muitas vezes devido à nossa ignorância, fazemos afirmações como esta: o mais importante é ter saúde! Pois sem ela não se pode trabalhar, se não trabalharmos, não produzimos, se não produzimos, também não colhemos, se não colhemos, não temos alimento, e sem alimento o corpo debilita-se e adoece, e assim torna-se um ciclo vicioso, como se fôssemos um cachorro correndo atrás do seu próprio rabo, andando em círculos contínuos sem nunca sair do mesmo lugar. Através da sua experiência no deserto, Jesus dá-nos um choque de lucidez, Ele também era homem sujeito às mesmas carências e tentações que todos nós. Hb 4:15 E mesmo assim ao fim de quarenta dias de jejum só pôde reconhecer que o único alimento do qual o Homem não pode prescindir, é toda a palavra que sai da boca de Deus.
Duvido muito que certos cristãos levem isto a sério, trabalha-se seis e a sete dias na semana, quase nunca se põe os pés numa igreja, lêem-se muitos livros, jornais e até certas revistas de conteúdo duvidoso, mas a Bíblia despreza-se e por causa disto se fazem outras afirmações, como por exemplo: o que está para lá da morte é um mistério que ninguém sabe, muitos já partiram deste mundo, mas nunca nos vieram trazer notícias do outro. Nem é de estranhar que assim se pense, pois o único livro que fala com verdade do que se passa para além da fronteira da morte é a Bíblia, não pode nem deve ser ignorada, não deve ser apenas um objecto decorativo preenchendo um lugar vago nas nossas bibliotecas privadas, que de quando em quando se pega nela apenas para limpar o pó.
Através do seu servo Moisés, Deus fala ao seu povo de Israel o seguinte: “Ouve, Israel, o Senhor, teu Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, tem Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as intimarás aos teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão e te serão por testeiras entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas portas.” Deut 6:4-9
Por tudo isto, só podemos concluir que a palavra de Deus é alimento completo e integral, espiritualmente aconselhável a todas as idades, deve ser habilmente regurgitada aos nossos filhos, como poesia deveria fluir dos nossos lábios, quer no aconchego dos nossos lares, quer caminhando ou trabalhando. Como a brisa da noite conforta-nos ao deitar, quando nos levantamos é estimulante como o orvalho da manhã. Transforma o nosso egoísmo em gestos de amor e solidariedade e no nosso semblante aumenta o brilho do nosso olhar.
Nos umbrais das nossas casas e nas suas portas, a palavra do Senhor, deveria ser gravada, para que dela nunca nos esquecêssemos, nem das misericórdias do nosso Deus.
O Homem não é somente carne, por isso carece de toda apalavra que sai da boca de Deus.

Disse H. Greeley: “É impossível escravizar mental ou socialmente um povo que leia a Bíblia.”

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O Clamor de Deus

Clama a mim, e responder-te-ei, e anunciar-te-ei coisas grandes e firmes, que não sabes. Gr 33:3.
As posições parecem terem-se invertido, o povo já não mais buscava a Deus para obter misericórdia e orientação, mas é o Senhor que através do profeta Jeremias, incentiva o povo a reconsiderar a sua situação espiritual, clamando para que o busquem, porque quer anunciar-lhes coisas grandes e firmes que eles desconhecem.
Por mais que me esforce, a frustração de Deus em relação ao ser humano, está para além da minha compreensão, pois ela é imensa, pois já nada era mais como no princípio, o ser criado adulterara por completo os seus propósitos. O Todo Poderoso ao concluir a sua obra disse: “Eis que tudo é muito bom.” Gr 1:31.
Na verdade tudo se relacionava na perfeição, a harmonia existente entre criador e criatura era tal que nem se percebia a diferença entre os seres, na realidade o ser criado era conforme a imagem e semelhança daquele que o criou. Mas certo dia aquela rotina amistosa e paradisíaca foi quebrada, e o caus instalou-se, porque uma voz estranha se fez ouvir no Éden, que ardilosamente levou os nossos antepassados a transgredirem a ordem do seu Deus, e aquilo que a princípio parecia agradável aos olhos e desejável para dar entendimento, fez com que os nossos primeiros pais temessem Aquele que os amava acima de toda a criação. Aqui pela primeira vez o criador sentiu a frustração de um encontro anulado e a necessidade de perguntar: “Adão onde estás?”
Ao longo de toda a história, Deus sempre se empenhou em estabelecer um relacionamento amistoso com o ser humano, e estou certo de que o seu empenho não ficou limitado à era Bíblica, ele estende-se até nós e na oração que Jesus ensinou (o Pai nosso), fica claro que a mais soberana demonstração daquilo que Deus pretende, é um relacionamento íntimo, contínuo e com direito de exclusividade.
O clamor de Deus, vem muito a propósito para o nosso tempo, estamos a viver tempos difíceis a todos os níveis, o mundo parece ter entrado num beco sem saída e clama por uma resolução que o liberte. Disse G. Washington: “é impossível governar corretamente o mundo, sem Deus e sem a Bíblia.”
Estão-se a esgotar todas as hipótese e soluções, o mundo não sabe mais para que lado se virar e à semelhança daquilo que aconteceu no tempo do profeta Jeremias, Deus certamente está a procurar alguém que pratique a justiça e busque a verdade para que possa usar de misericórdia e perdão e assim revelar a sua grandeza, mas infelizmente muitas vezes só o buscamos como último recurso, ou para proveito próprio.
Não são raras as vezes em que a Santa palavra de Deus nos adverte seriamente para que sejamos modestos no que diz respeito às coisas concernentes a esta vida. Disse Jesus: “Não andeis cuidadosos, quanto à vossa vida, mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas as coisas vos serão acrescentadas. MT 6. Mas no que respeita às coisas espirituais e verdadeiras, incita-nos a que nos cheguemos a Deus com confiança dizendo: “Pedi e dar-se-vos-á, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á; porque qualquer que pede, recebe e quem busca acha; e a quem bate, abrir-se-lhe-á.” Lc 11:9,10.
“Buscai ao Senhor, enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto, porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos” – diz o Senhor. “Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos que os vossos caminhos e os meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos.” Is 55:6-9.
Mas no entanto o ser humano é propenso a inverter as prioridades. Certo dia reclamou Jesus daqueles que o seguiam dizendo: “Na verdade me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque que comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque a este, o Pai, Deus, o selou.” Jo 6:26, 27.
O contexto histórico em que Jesus viveu, era caótico, o povo Judeu havia perdido a sua identidade como nação, pois estava sob o domínio romano, já havia alguns séculos que estavam sem profeta, os líderes religiosos haviam-se corrompido e dividiam-se em algumas fracções, cada qual pensando e interpretando as escrituras segundo as suas conveniências, por isso até mesmo o povo não conseguia enxergar algo mais do que o ventre, estabilidade política, económica e social.
Jesus veio mesmo a propósito, parecia ser mágico, multiplicava pães e peixes, transformava água em vinho, curava todo o tipo de enfermidades, expulsava demónios e ressuscitava mortos, o que mais poderiam desejar, a não ser que ele fosse coroado rei e tudo seria perfeito. Até mesmo dois dos seus discípulos estavam tão entusiasmados, que queriam sentar-se, um à direita e outro à esquerda de Jesus no seu reino.
Para nós seres humanos, na verdade, os milagres, as curas, as expulsões demoníacas e as ressurreições, são coisas grandes e até devemos considerá-las e estar gratos e louvar o criador por tudo isso, mas para Ele, todas estas coisas são pequenas e temporais, porque os seus pensamentos e os seus caminhos são muito mais excelsos.
Actualmente muitos cristãos, infelizmente, pouco divergem do antepassado povo Judeu contemporâneo do Mestre da Galileia. O que os motiva quando se deslocam aos sumptuosos santuários, para além de se invocar outros deuses que não o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo? Com que objectivo alguns procuram centros de ajuda espiritual e outros curandeiros e bruxos? Certamente coisas demasiado pequenas e temporais. Dá-se ouvidos a outras vozes e não se consulta a Santa Bíblia. Busca-se muito mais o proveito próprio do que a glórias do Altíssimo Deus.
“Clama a mim e responder-te-ei”, é uma promessa também válida para os cristãos de hoje, se tão somente formos capazes de praticar a justiça e buscar as verdades eternas. Infelizmente na maioria dos casos somos religiosos frustrados, contentando-nos com as míseras migalhas que o inimigo oferece disfarçado de anjo.
Apropriadamente escreve o apóstolo Tiago: “Cobiçais e nada tendes, e nada tendes porque nada pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.” Tg 4:2,3.
Coisas grandes e firmes são aquelas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu e que jamais subiram ao coração humano, essas mesmas são as que Deus preparou para aqueles que o amam. “Porque nos são reveladas pelo seu Espírito que penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus.” I Cor 2:9,10.

A sua avaliação não pode estar sujeita ao critério dos homens, mas unicamente ao padrão Divino.