Certo dia, perturbado com as minhas inquietações, consultei o
sábio mestre, perguntando-lhe o que ele entendia por silêncio e invisibilidade.
Olhou-me nos olhos como quem vê o que está para além da linha do horizonte, e
respondeu-me com duas intrigantes perguntas, dizendo: “Meu filho, quantos
surdos conseguem entender aquilo que não queres ouvir? E quantos cegos
conseguem enxergar o que não queres ver?” Simplesmente emudeci, e pude perceber
que a autopiedade e o egocentrismo, muitas vezes nos impedem de ver a miséria
que nos rodeia, e de ouvir o clamor dos que sofrem mais do que nós.
"E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo; porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe; a tantos quanto Deus, nosso Senhor, chamar." Actos 2:38,39
quarta-feira, 28 de maio de 2014
sexta-feira, 23 de maio de 2014
O Homem, também, é carne
“Não contenderá o meu Espírito para sempre com o Homem;
porque ele, também, é carne.” Gn 6:3
Consultei diferentes versões da Bíblia, sobre este texto das
sagradas escrituras, mas o meu favoritismo recaiu sobre a versão revista e corrigida
de João Ferreira de Almeida, não por causa do tradutor em si, mas sim pela
abordagem detalhada das duas naturezas que compõem o ser humano. Não sou da
opinião que a diferentes versões bíblicas, se opõem ou se contradizem, mas
creio que algumas são mais claras e outras mais completas em seus textos, sem
no entanto adulterarem o contexto geral do Livro Sagrado.
Para além do termo carne, também se referir à nossa realidade
física, regra geral ele aparece na Bíblia, no sentido de que o ser humano tem uma
inclinação natural para o mal, ou simplesmente significa fragilidade, conforme
afirma Jesus: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação: na verdade, o
espírito está pronto, mas a carne é fraca.” MT 26:41. Também no livro dos
Salmos lemos o seguinte: “Mas Deus, que é misericordioso, perdoou a sua iniquidade,
e não os destruiu; antes, muitas vezes desviou deles a sua cólera, e não deixou
despertar toda a sua ira. Porque se lembrou de que eram carne, um vento que
passa e não volta.” Sl 78:38, 39.
O texto bíblico de referência deixa bem claro o desalento do
criador, a sua decepção em relação ao Homem que criou chegou ao extremo, e ao
olhar para ele, somente via que a maldade se multiplicava, e que toda a
imaginação dos pensamentos do seu coração era só má continuamente. E
arrependeu-se de haver feito o Homem, e isto pesou-lhe em seu coração. Gn 6:1-6
Até então, segundo os registos bíblicos genealógicos, a média
de vida do ser humano era muito alta, muitos homens viveram mais de novecentos
anos, sendo Metusala o recordista, o qual era filho de um homem que se destaca
em toda a genealogia pela sua breve existência, Henoch, apenas 365 anos, e não
havendo registo da sua morte, dele está escrito o seguinte: “E andou Henoch com
Deus; e não se viu mais; porquanto Deus para si o tomou.” Gn 5:24. Certamente
este homem não conseguia enxergar mais nada na vida, ao ponto de Deus concluir
que seria uma perca de tempo esperar que ele morresse, e assim permitiu que Henoch
caminhasse com Ele até que se perdeu de vista. Algo de semelhante, também se
passou com o profeta Elias muitos anos mais tarde. II Reis 2:1-11
Algo leva-me a pensar que a longevidade do ser humano era uma
tentativa do criador, no sentido de que o homem tivesse tempo para se redimir,
ou no mínimo ter a mesma atitude de Henoch, que não desgrudava do seu Senhor e
alcançou testemunho de que agradara a Deus. Hb 11:5.
Agora sobre o texto inicial, importa realçar, que a maioria
das traduções só transmite uma ideia, por exemplo: “Meu Espírito não
permanecerá no Homem, pois ele é carne.” – Bíblia de Jerusalém. Não vou
proteger o Homem por muito tempo. Ele é mortal.” – Versão ecuménica. “O meu
Espírito não permanecerá indefinidamente no Homem, pois o Homem é carne.” –
Missionários capuchinhos, edição de 1978. “O meu Espírito não continuará a ser
desonrado pelo Homem, visto que todo ele é mau.” – O Livro – a Bíblia para
Hoje, etc.
Aqui neste texto, João de Almeida destaca-se, através dos
detalhes do seu texto dizendo: “Porque ele, o Homem, também é carne. E assim
surge a dupla ideia de que o Homem não é somente carne.
Também no evangelho de S. Mateus, Jesus transmite-nos a mesma
ideia: “E tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; e,
chegando-se a ele o tentador disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas
pedras se tornem em pães. Ele porém respondendo disse: Está escrito: Nem só de
pão viverá o Homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.” MT 4:2-4
A nossa realidade física não deve ser subestimada, no entanto
é passageira e de pouco sentido se negligenciarmos a nossa realidade
espiritual.
Muitas vezes devido à nossa ignorância, fazemos afirmações
como esta: o mais importante é ter saúde! Pois sem ela não se pode trabalhar,
se não trabalharmos, não produzimos, se não produzimos, também não colhemos, se
não colhemos, não temos alimento, e sem alimento o corpo debilita-se e adoece,
e assim torna-se um ciclo vicioso, como se fôssemos um cachorro correndo atrás
do seu próprio rabo, andando em círculos contínuos sem nunca sair do mesmo lugar.
Através da sua experiência no deserto, Jesus dá-nos um choque de lucidez, Ele
também era homem sujeito às mesmas carências e tentações que todos nós. Hb 4:15
E mesmo assim ao fim de quarenta dias de jejum só pôde reconhecer que o único
alimento do qual o Homem não pode prescindir, é toda a palavra que sai da boca
de Deus.
Duvido muito que certos cristãos levem isto a sério,
trabalha-se seis e a sete dias na semana, quase nunca se põe os pés numa
igreja, lêem-se muitos livros, jornais e até certas revistas de conteúdo
duvidoso, mas a Bíblia despreza-se e por causa disto se fazem outras
afirmações, como por exemplo: o que está para lá da morte é um mistério que
ninguém sabe, muitos já partiram deste mundo, mas nunca nos vieram trazer
notícias do outro. Nem é de estranhar que assim se pense, pois o único livro
que fala com verdade do que se passa para além da fronteira da morte é a
Bíblia, não pode nem deve ser ignorada, não deve ser apenas um objecto
decorativo preenchendo um lugar vago nas nossas bibliotecas privadas, que de
quando em quando se pega nela apenas para limpar o pó.
Através do seu servo Moisés, Deus fala ao seu povo de Israel
o seguinte: “Ouve, Israel, o Senhor, teu Deus, é o único Senhor. Amarás, pois,
o Senhor, tem Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o
teu poder. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as
intimarás aos teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando
pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua
mão e te serão por testeiras entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais
da tua casa, e nas tuas portas.” Deut 6:4-9
Por tudo isto, só podemos concluir que a palavra de Deus é
alimento completo e integral, espiritualmente aconselhável a todas as idades,
deve ser habilmente regurgitada aos nossos filhos, como poesia deveria fluir
dos nossos lábios, quer no aconchego dos nossos lares, quer caminhando ou
trabalhando. Como a brisa da noite conforta-nos ao deitar, quando nos
levantamos é estimulante como o orvalho da manhã. Transforma o nosso egoísmo em
gestos de amor e solidariedade e no nosso semblante aumenta o brilho do nosso
olhar.
Nos umbrais das nossas casas e nas suas portas, a palavra do
Senhor, deveria ser gravada, para que dela nunca nos esquecêssemos, nem das
misericórdias do nosso Deus.
O Homem não é somente carne, por isso carece de toda apalavra
que sai da boca de Deus.
Disse H. Greeley: “É impossível escravizar mental ou socialmente
um povo que leia a Bíblia.”
quarta-feira, 7 de maio de 2014
O Clamor de Deus
Clama a mim, e responder-te-ei, e anunciar-te-ei coisas
grandes e firmes, que não sabes. Gr 33:3.
As posições parecem terem-se invertido, o povo já não mais
buscava a Deus para obter misericórdia e orientação, mas é o Senhor que através
do profeta Jeremias, incentiva o povo a reconsiderar a sua situação espiritual,
clamando para que o busquem, porque quer anunciar-lhes coisas grandes e firmes
que eles desconhecem.
Por mais que me esforce, a frustração de Deus em relação ao
ser humano, está para além da minha compreensão, pois ela é imensa, pois já
nada era mais como no princípio, o ser criado adulterara por completo os seus
propósitos. O Todo Poderoso ao concluir a sua obra disse: “Eis que tudo é muito
bom.” Gr 1:31.
Na verdade tudo se relacionava na perfeição, a harmonia
existente entre criador e criatura era tal que nem se percebia a diferença
entre os seres, na realidade o ser criado era conforme a imagem e semelhança
daquele que o criou. Mas certo dia aquela rotina amistosa e paradisíaca foi
quebrada, e o caus instalou-se, porque uma voz estranha se fez ouvir no Éden,
que ardilosamente levou os nossos antepassados a transgredirem a ordem do seu
Deus, e aquilo que a princípio parecia agradável aos olhos e desejável para dar
entendimento, fez com que os nossos primeiros pais temessem Aquele que os amava
acima de toda a criação. Aqui pela primeira vez o criador sentiu a frustração
de um encontro anulado e a necessidade de perguntar: “Adão onde estás?”
Ao longo de toda a história, Deus sempre se empenhou em
estabelecer um relacionamento amistoso com o ser humano, e estou certo de que o
seu empenho não ficou limitado à era Bíblica, ele estende-se até nós e na
oração que Jesus ensinou (o Pai nosso), fica claro que a mais soberana
demonstração daquilo que Deus pretende, é um relacionamento íntimo, contínuo e
com direito de exclusividade.
O clamor de Deus, vem muito a propósito para o nosso tempo,
estamos a viver tempos difíceis a todos os níveis, o mundo parece ter entrado
num beco sem saída e clama por uma resolução que o liberte. Disse G. Washington:
“é impossível governar corretamente o mundo, sem Deus e sem a Bíblia.”
Estão-se a esgotar todas as hipótese e soluções, o mundo não
sabe mais para que lado se virar e à semelhança daquilo que aconteceu no tempo
do profeta Jeremias, Deus certamente está a procurar alguém que pratique a
justiça e busque a verdade para que possa usar de misericórdia e perdão e assim
revelar a sua grandeza, mas infelizmente muitas vezes só o buscamos como último
recurso, ou para proveito próprio.
Não são raras as vezes em que a Santa palavra de Deus nos
adverte seriamente para que sejamos modestos no que diz respeito às coisas
concernentes a esta vida. Disse Jesus: “Não andeis cuidadosos, quanto à vossa
vida, mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas as coisas vos
serão acrescentadas. MT 6. Mas no que respeita às coisas espirituais e
verdadeiras, incita-nos a que nos cheguemos a Deus com confiança dizendo: “Pedi
e dar-se-vos-á, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á; porque qualquer que
pede, recebe e quem busca acha; e a quem bate, abrir-se-lhe-á.” Lc 11:9,10.
“Buscai ao Senhor, enquanto se pode achar, invocai-o enquanto
está perto, porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os
vossos caminhos os meus caminhos” – diz o Senhor. “Porque, assim como os céus
são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos que os
vossos caminhos e os meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos.” Is
55:6-9.
Mas no entanto o ser humano é propenso a inverter as
prioridades. Certo dia reclamou Jesus daqueles que o seguiam dizendo: “Na
verdade me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque que comestes do pão
e vos saciastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que
permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque a este,
o Pai, Deus, o selou.” Jo 6:26, 27.
O contexto histórico em que Jesus viveu, era caótico, o povo
Judeu havia perdido a sua identidade como nação, pois estava sob o domínio
romano, já havia alguns séculos que estavam sem profeta, os líderes religiosos
haviam-se corrompido e dividiam-se em algumas fracções, cada qual pensando e
interpretando as escrituras segundo as suas conveniências, por isso até mesmo o
povo não conseguia enxergar algo mais do que o ventre, estabilidade política,
económica e social.
Jesus veio mesmo a propósito, parecia ser mágico,
multiplicava pães e peixes, transformava água em vinho, curava todo o tipo de
enfermidades, expulsava demónios e ressuscitava mortos, o que mais poderiam
desejar, a não ser que ele fosse coroado rei e tudo seria perfeito. Até mesmo
dois dos seus discípulos estavam tão entusiasmados, que queriam sentar-se, um à
direita e outro à esquerda de Jesus no seu reino.
Para nós seres humanos, na verdade, os milagres, as curas, as
expulsões demoníacas e as ressurreições, são coisas grandes e até devemos
considerá-las e estar gratos e louvar o criador por tudo isso, mas para Ele,
todas estas coisas são pequenas e temporais, porque os seus pensamentos e os
seus caminhos são muito mais excelsos.
Actualmente muitos cristãos, infelizmente, pouco divergem do
antepassado povo Judeu contemporâneo do Mestre da Galileia. O que os motiva
quando se deslocam aos sumptuosos santuários, para além de se invocar outros
deuses que não o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo? Com que objectivo alguns
procuram centros de ajuda espiritual e outros curandeiros e bruxos? Certamente
coisas demasiado pequenas e temporais. Dá-se ouvidos a outras vozes e não se
consulta a Santa Bíblia. Busca-se muito mais o proveito próprio do que a
glórias do Altíssimo Deus.
“Clama a mim e responder-te-ei”, é uma promessa também válida
para os cristãos de hoje, se tão somente formos capazes de praticar a justiça e
buscar as verdades eternas. Infelizmente na maioria dos casos somos religiosos
frustrados, contentando-nos com as míseras migalhas que o inimigo oferece
disfarçado de anjo.
Apropriadamente escreve o apóstolo Tiago: “Cobiçais e nada
tendes, e nada tendes porque nada pedis; pedis e não recebeis, porque pedis
mal, para o gastardes em vossos deleites.” Tg 4:2,3.
Coisas grandes e firmes são aquelas que o olho não viu, e o
ouvido não ouviu e que jamais subiram ao coração humano, essas mesmas são as
que Deus preparou para aqueles que o amam. “Porque nos são reveladas pelo seu
Espírito que penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus.” I Cor
2:9,10.
A sua avaliação não pode estar sujeita ao critério dos
homens, mas unicamente ao padrão Divino.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Fazei prova de mim, diz o Senhor
É de louvar todo aquele, que, com equidade faz bom uso do
espírito crítico e com sabedoria analisa todo o conteúdo tanto daquilo que vê,
ouve ou lê, pois quem assim procede, prudentemente a si mesmo se conduz e dificilmente
será um tropeço para o seu semelhante.
O próprio apóstolo S. João aconselha-nos: “Amados, não
creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já
muitos falsos profetas se têm levantado no mundo”. I João 4:’7.
Também o rei David, num dos seus salmos nos exorta: “Provai e
vede que o Senhor é bom”. Salmo 34:10. No contexto do salmo o rei é específico
aos nos incitar a que façamos uso consciente e ousado da nossa aptidão natural
de questionar. No entanto, supera todas as expectativas, quando é o próprio
Deus a lançar-nos o desafio: “Fazei prova de mim”. Malq; 3:10.
É tranquilizador saber que o criador do universo não se
ofende com as nossas questões e dúvidas, nem tão pouco nos despreza por isso.
Creio a indiferença ser um dos piores inimigos do ser humano, ela opõe-se directamente
a Deus, é como diz a escritura: “Assim porque és morno e não és frio nem
quente, vomitar-te-ei da minha boca.” Apoc 3:1.
Certamente Deus agrada-se daqueles que fazem prova dele, pois
mostram claramente, que não estão buscando algo que seja do imaginário humano.
Durante o período quaresmal, escrevi uma série de artigos,
todos eles centralizados na pessoa de Deus e no seu filho Jesus Cristo, nos
quais creio piamente, mas creio ser oportuno respeitar quem não seja tão
crédulo e vestir sua pele, estimulando-o a fazer bom uso da razão.
Vou citar apenas alguns exemplos: o Sr. Augusto Cury é
psiquiatra, psicoterapeuta, cientista e escritor, certamente muitos dos seus
livros são conhecidos dos leitores do DI, assim como alguns exemplares fazem
também parte da minha colecção pessoal e muito contribuíram para a formação
daquilo que sou hoje.
O ser humano é dotado de inteligência e capacidade de
raciocínio, por isso não se deve acomodar àquilo que sempre creu, nem refutar
tudo o que ouve sem que antes o examine.
O Sr. Cury é um verdadeiro exemplo de alguém que é honesto
consigo próprio, era ateu por convicção e um dia decidiu provar ao mundo,
através dos próprios evangelhos, que Jesus Cristo era uma fraude, um embuste
fruto do imaginário humano, para surpresa sua, ao fazer uma profunda análise à
mente de Cristo, conforme descrita nas suas biografias, chegou à brilhante
conclusão: “é impossível à mente humana conceber tal personagem!”.
Hoje este cientista e escritor é um grande divulgador do
Homem que revolucionou o mundo com a sua doutrina, e confessa que a ciência
ainda é uma criança ao negligenciar um estudo profundo à sua inteligência.
De nós cristãos, o Homem de Nazaré é digno de algo muito mais
sublime do que uma simples religiosidade aparente, deveríamos ser um pouco mais
inteligentes na devoção que prestamos àquele que é o criador de todo o
universo.
Há alguns séculos atrás, um jovem sacerdote chamado Martinho
Lutero, inconformado com a sua religiosidade, abalou o mundo e a igreja, porque
ousou experimentar Deus. Naquela época estava instalado o reino das trevas, a
leitura da Bíblia era proibida, as missas eram oficiadas em latim, que só o
clero entendia e havia a chamada “santa inquisição” que se incumbia de
silenciar todo aquele que ousasse discordar da “santa madre igreja”. Este homem
foi incompreendido e perseguido, e por pouco escapou às santas fogueiras.
Enquanto exilado, protegido por um príncipe traduziu a Bíblia
para a língua do povo e foi pioneira na imprensa tão recentemente inventada. As
escrituras, que até então eram desconhecidas, passaram a ser o livro texto nas
escolas e desta forma uma revolução espiritual propagou-se no centro da Europa
de forma tal, que ainda hoje pela graça de Deus sentimos seus efeitos.
Um outro personagem que me encanta é o apóstolo S. Paulo que
antes de se converter chamava-se Saulo. Era homem de profundas convicções e de
cego zelo religioso, perseguira a igreja de Cristo com todas as suas forças e
certo dia obtendo mandatos de captura, dirigiu-se para Damasco afim de prender
todos quantos pertencessem à seita do Nazareno, mas ao chegar perto da cidade
um resplendor o cercou subitamente vindo do céu e caiu por terra, aí ouviu uma
voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo porque me persegues?” e ele disse ”Quem és
Senhor?” e disse o Senhor: “Eu sou Jesus a quem tu persegues.” Actos 9:3-6.
S. Paulo era homem de fervor religioso cego, não se
questionava, estava tão certo daquilo em que acreditava, que todo aquele que
não pensasse da mesma forma, era um alvo a abater, mas ao ser confrontado com o
Senhor da glória rendeu-se.
Gastou o resto da sua vida servindo a igreja e o seu Senhor
que antes perseguia, foi perseguido e acabou os seus dias numa prisão até que
foi morto.
Estes são apenas alguns exemplos de homens que se
confrontaram com uma realidade superior à deles, não se convenceram, mas foram
convencidos de que a realidade da sua existência estava dependente de outra
realidade que não é mitológica.
Não foi o Homem quem inventou Deus, nem tão pouco através da
religião ele consegue reconciliar-se com Ele, mas é Deus que em Cristo
reconcilia o ser humano com o seu Criador.
Ao contrário dos deuses mitológicos, o nosso Deus é real, em
Cristo torna-se visível e palpável, quer que o amemos com todo o nosso coração,
com todas as nossas forças, mas também com todo o nosso entendimento, pois a
sua essência é o amor. I Jo 4:8.
O nosso Deus pode parecer complexo, mas na verdade é tão
simples e acessível como o é Jesus, manso e humilde de coração, o seu jugo não
é pesado e o seu fardo é leve e amorosamente nos convida: “vinde a mim todos os
que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” MT 11:28.
Fazei prova de mim, diz o Senhor. Embora o contexto actual
seja diferente daquele em que viveu Malaquias, o desafio de Deus propaga-se no
tempo e chega até nós. O mundo está cheio de religião, mas Deus está buscando
homens e mulheres que em meio às provações possam dizer como o patriarca Job:
“Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a
terra. E depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne verei Deus.
Vê-lo-ei por mim mesmo, e os meus olhos e não outros o verão.” Job. 19:25-27.
domingo, 20 de abril de 2014
Eu sou a ressurreição e a vida
Na noite em que Jesus celebrou
a última ceia pascal, disse aos seus discípulos: “Desejei muito comer convosco
esta páscoa, antes que padeça; porque vos digo que não a comerei mais, até que
ela se cumpra no reino de Deus.” Lc 22:15, 16.
Esta festa anual já era
praticada pelo povo hebreu desde o tempo em que fora liberto por Deus com mão
forte através do seu servo Moisés, da escravatura no Egipto. Páscoa é um termo
hebraico que significa passagem e nesta grande festa o povo anualmente
comemorava a grande vitória, ou seja, a passagem de uma condição de escravos,
para uma nova realidade de seres livres numa terra abundante, onde Deus era o
único ser supremo.
A partir da
ressurreição de Cristo a Páscoa adquiriu um novo sentido, passou a significar
para nós cristãos, a vitória de Jesus sobre o diabo, o pecado e a morte, assim
como a nossa libertação do mundo das trevas e do inferno, tornou-se assim a
nossa passagem da condição de pecadores oprimidos pelo diabo com destino à
condenação eterna, para a nova realidade de cidadãos do reino dos céus.
Infelizmente, hoje,
apesar de a Páscoa ser a mais importante festa da cristandade, os cristãos de
forma generalizada não lhe atribui o verdadeiro significado. Com o passar dos
tempos foi-se tornando mais uma festa, assim como o Natal, é mais um motivo
comercial e de encontro entre familiares e amigos.
Faz parte da cultura
cristã, nesta época falar-se da ressurreição, as pessoas afluem aos grandes
templos parecendo devotas, mas no fundo o único facto em que acreditam é que a
morte e a sepultura são o fim mais certo.
Os cristãos têm-se
tornado racionalistas e a ressurreição é algo que contraria a nossa lógica, é
cientificamente improvável, mas como a ciência é um progressivo acumular de
conhecimentos, com o passar dos anos ele vai caducando e necessita constantemente
de ser actualizada, por isso resta-nos apenas acreditar nas escrituras
sagradas, que através dos séculos têm resistido a todo o tipo de provações até
mesmo àqueles que deturpam os seus ensinos.
Todo o ser humano tem
consciência de que o colapso existencial é inevitável, no entanto luta
desesperadamente para retardar o mais possível esse facto, temos consciência da
nossa existência, mas o fim dela parece-nos absurdo.
Actualmente falar de
ressurreição convictamente, certamente corre-se o risco de se ser motivo de
chacota à semelhança daquilo que aconteceu com o apóstolo S. Paulo: “E como o
ouviram falar da ressurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros diziam:
Acerca disto te ouviremos outra vez.” Actos 17:32. Isto aconteceu em praça
pública, mas o mesmo apóstolo teve maiores problemas dentro da própria igreja e
escreveu o seguinte: “Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como
dizem alguns de entre vós que não há ressurreição de mortos? E se não há
ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou; e, se Cristo não
ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé… e ainda
permaneceis nos vossos pecados; e os que morreram em Cristo estão perdidos. Se
esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens
e nos constituímos falsas testemunhas de Deus.” I Cor 15:12-19.
Se subtrairmos ao
cristianismo a ressurreição dos mortos resta-nos apenas uma forma religiosa de
estar na vida como tantas outras, que segundo Paulo é a mais miserável de
todas, pois que não está cumprindo com o seu verdadeiro objectivo que é a
esperança de vida eterna.
Apesar da ressurreição
de Cristo pertencer à esfera da fé, isso não significa que ela seja fruto do
imaginário humano, nem aconteceu num beco qualquer, escreve o grande apóstolo dos
gentios: “Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo
morreu pelos nossos pecados, segundo as escrituras, e que foi sepultado, e que
ressuscitou ao terceiro dia, segundo as escrituras, e que foi visto por Cefas,
e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos,
dos quais vive, ainda, a maior parte… Depois foi visto por Tiago, depois por
todos os apóstolos. E, por derradeiro de todos, me apareceu também a mim, como
a um abortivo. Porque sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser
chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus.” I Cor 15:3-9.
O maior personagem de
toda a história da humanidade, dedicou os seus últimos três anos de vida a um
único ideal: morrer e ressuscitar. Desde muito cedo começou a mostrar aos seus
discípulos, que convinha ir a Jerusalém, e padecer muito dos anciãos, e dos
princípios dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao
terceiro dia. Mt/6:21.
Tudo isto Jesus falou e
no que diz respeito à sua pessoa, tudo se concretizou e deu provas concludentes
de que o seu ideal não era fruto de um imaginário masoquista. No dia da
ressurreição apresentou-se no meio dos seus discípulos e disse: “Paz seja
convosco. E eles espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito. E
Ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos
aos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo:
apalpai-me e vede; pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu
tenho. E dizendo isto mostrou-lhes as mãos e os pés. E não o crendo ainda, por
causa da alegria, e estando maravilhados disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa
de comer? Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado e um favo de
mel. O que Ele tomou e comeu diante deles. Então abriu-lhes o entendimento, para
compreenderem as escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha
que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dos mortos, e em seu
nome se pregasse o arrependimento e remissão dos pecados, em todas as nações,
começando por Jerusalém. E destas coisas sois vós testemunhas.” Lc 24:36-48.
Perante tudo o que
Jesus viveu, falou e os seus discípulos presenciaram, mesmo assim não há como
provar o facto da ressurreição, e por incrível que pareça creio que nem mesmo o
próprio Jesus está preocupado com isso. Tomé, o discípulo duvidoso que afirmou
crer somente quando tivesse provas palpáveis, recebeu a seguinte reprimenda: “não
sejas incrédulo, mas crente. Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os
que não viram e creram.” João 20:27, 29.
Estamos em tempo de
Páscoa, certamente muitos de nós cristãos temos muitas dúvidas quanto à nossa
fé, mas Jesus quer deixar-nos uma mensagem de esperança, assim como o fez
a Marta, irmã do defunto Lázaro, dizendo: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem
crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em
mim nunca morrerá. Crês ter isto?” João 11:25,26.
Caro leitor o futuro da
nossa existência depende somente da resposta que tivermos para dar a esta
pergunta de Jesus.
Feliz Páscoa!
sexta-feira, 18 de abril de 2014
A Paixão de Cristo
Diz
um velho ditado: “Dos fracos não reza a história.” Pelo contrário, são
ignorados, esquecidos, marginalizados, oprimidos, escravizados, odiados e
subestimados, como se de inúteis de tratassem. No entanto, são estes mesmos que
enriquecem a muitos e são a causa da glória de outros, tendo a ingratidão como
recompensa. A nossa história está repleta de grandes personagens que
concretizaram enormes feitos: travaram colossais batalhas, realizaram colossais
conquistas, traçaram rotas marítimas, povoaram ilhas, deram novos mundos ao
mundo, enfim, um pequeno país com uma grande história escrita com o sangue de
muitos fracos que, por força das circunstâncias, não tinham opção de escolha.
Em suma, os grandes deste mundo, os fortes e os “todo-poderosos” só conseguiram
fazer alguma coisa que ficasse na história dominando, subjugando e servindo-se
dos mais fracos, e ainda hoje se continua a escrevê-la nos mesmos moldes.
Há
muito tempo atrás um carpinteiro de Nazaré também fez história, dividiu a
história e deu um novo rumo à história de muitos fracos, pois ele não esmagará
a cana quebrada e não apagará o morrão que fumega até que faça triunfar o
juízo. Este homem tem inspirado poetas e escritores, compositores, pintores e
até cineastas, como é o caso de Mel Gibson que, a meu ver, foi muito feliz na
produção do filme “A Paixão de Cristo”, trazendo para os ecrãs todos os
pormenores das últimas doze horas da vida de Jesus. Impressionou muitos que
estavam habituados a contemplar a cruz vazia, bem adornada, e que quase se
esqueciam de que um dia ela estivera manchada com sangue inocente. A outros
provocou revolta por acharem que foi exibida demasiada violência gratuita. É
compreensível que seja chocante presenciar de forma condensada tudo aquilo que
o Filho de Deus teve que passar ao longo de várias horas. Mas é um facto, o ser
humano é de memória curta e propenso a esquecer-se facilmente que o novo rumo
da sua história teve um preço muito alto.
O
apóstolo S. Paulo, no início da sua epístola aos Coríntios, demonstra de forma
bem clara a sua preocupação: “Os judeus pedem sinal e os gregos buscam
sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os
judeus, e loucura para os gregos (…) nada me propus saber, entre vós, senão a
Jesus Cristo e este crucificado (1 Coríntios 1:22, 23; 2:2). Já ouvi várias
opiniões a respeito do sofrimento de Cristo. Há quem ache que a crucificação de
Jesus foi idêntica a tantas outras que eram comuns na época e que o seu maior
sofrimento foi espiritual e não físico, porque se condoía muito por causa do
pecado da humanidade. Outros dizem que o que Jesus mais temia era o abandono do
Pai, pelo facto de haver exclamado: “Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?” Lamento muito que os Cristãos pensem assim, limitando-se a olhar
apenas para algumas situações, não analisando bem de perto as palavras e as
circunstâncias em que tudo se passou. É verdade, Jesus não foi o único a ser
crucificado, muitos o foram antes e depois dele, mas por se tratar de uma
condenação fraudulenta todo o seu processo penal não teve o mesmo desenrolar
dos demais condenados, como se pode facilmente depreender ao lermos o que se
passou desde o momento em que foi preso até ao suspiro final.
O
próprio Jesus disse aos seus discípulos: “Convém ir a Jerusalém e padecer muito
dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes e dos escribas e ser morto”
(Mateus 16:21). Na verdade Jesus sofreu muito por causa do pecado, mas no seu
corpo, como nos relata o profeta: “Como pasmaram muitos à vista dele, pois o
seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e olhando
nós para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos. Era desprezado, e
o mais indigno entre os homens, homem de dores, e como um de quem os homens
escondem o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Mas ele foi
ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo
que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.”
(Isaías 53). Quanto ao brado de Jesus na cruz, através do qual alguns afirmam
que ele foi abandonado pelo Pai por ter assumido sobre si o pecado de toda a
humanidade, o qual Deus não pode suportar, questiono-me em que momento isso
terá acontecido. Durante todo o seu ministério, Jesus relacionou-se com o Pai
da forma mais íntima e natural, sem qualquer tipo de impedimento e fico com a
ideia de que a partir do momento em que subiu à cruz essa intimidade se tenha
tornado mais profunda. É da cruz que ele pede: “Pai, perdoa-lhes porque não
sabem o que fazem.” É da cruz que ele diz ao malfeitor, confiante: “Hoje
estarás comigo no paraíso.” É da cruz que ele exclama bem alto: “Está
consumado”, e: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito.” A única diferença
que encontro no Cristo crucificado é que antes ele se retirava e passava longos
momentos a sós com o Pai em oração, pois não era como os hipócritas que
gostavam de orar nas esquinas das ruas para serem vistos. Agora, Jesus estava
limitado e exposto à vergonha. O seu único conforto era saber que o Pai estava
suficientemente perto para o ouvir.
No
livro de Génesis temos um relato similar. Deus pediu a Abraão que oferecesse o
seu filho Isaac em holocausto numa montanha da terra de Moriá e, “dirigindo-se
para lá, edificou Abraão um altar e pôs em ordem a lenha e amarrou seu filho
Isaac, e deitou-o sobre o altar, em cima da lenha. E, ao tomar o cutelo para
imolar o seu filho, um anjo bradou do céu: Não faças mal ao moço, porquanto
agora sei que temes a Deus” (Génesis 22). Comparemos com a seguinte escritura: “Deus
amou o mundo de tal maneira que Deus o seu Filho unigénito, para que todo
aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16). Abraão
ofereceu o seu filho a Deus e Deus ofereceu o seu Filho ao mundo. Assim como
Abraão acompanhou Isaac até ao momento do holocausto, também creio que o Pai de
Jesus não procedeu de outra forma, pois ambos eram cúmplices no plano da
redenção da humanidade. Quando Jesus clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?”, o desabafo não foi de Filho para Pai, mas sim de homem para
Deus. O homem, semente da mulher, conforme Génesis 3:15, o varão de dores, que
no auge do suplício sentiu-se só, não pela ausência de Deus, mas por causa do
juízo que este fez cair sobre ele.
Tenho
boas razões para acreditar que Deus jamais pensou em abandonar o seu Filho,
fosse qual fosse a circunstância. Quando, por três vezes, Jesus orou: “Meu Pai,
se é possível passa de mim este cálice”, a sua alma estava cheia de tristeza
até à morte, a angústia apoderou-se dele e, embora Deus não pudesse atender à
sua oração, enviou um anjo para o confortar. Não gosto de classificar o
sofrimento de Jesus. Ele era humano e, como tal, sofreu em todos os aspetos. No
espírito sofreu por antecipação o cálice que estava por vir, ao ponto de
agonizar de forma tal que o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue que
corriam até ao chão. Isto só demonstra que o que estava pela frente era algo
infernal.
Por
mais que ofensas nos magoem e certas palavras nos firam, a dor física é a que
mais tememos e evitamos, e Jesus não foi exceção, simplesmente não teve como
evitá-la. O Filho de Deus foi o único que conseguiu fazer história sem derramar
sangue alheio. Enalteceu o fraco, humilhou o forte, cumpriu todo o propósito
divino e desfez, no seu corpo, todas as obras do diabo.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
A Ceia do Senhor
“Santa
Ceia”, “Comunhão”, “Ceia do Senhor”, são algumas das designações usadas para
definir aquilo a que alguns também chamam de “Sacramento do Altar”. Não me
preocupa os termos usados para descrever este memorial, mas sim aquilo que se
crê a respeito dele e a forma como o praticamos.
Na
minha opinião é lamentável e muito preocupante que, em nosso tempo, estejamos
tão aquém das expectativas de Deus no que diz respeito à instituição eucarística
de Cristo. Toda a sua vida foi em função do sacrifício expiatório. Disse Jesus:
“Desejei muito comer convosco esta Páscoa antes que padeça” (Lucas 22:15).
Algum tempo antes de estabelecer a ceia, Jesus proferiu um discurso que alguns
discípulos classificaram de muito duro e insuportável de se ouvir: “Eu sou o
pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o
pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. Quem come a
minha carne, e bebe o meu sangue, tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no
último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue
verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne, e bebe o meu sangue
permanece em mim e eu nele.” (João 6:51-56).
Há
quem não relacione este texto das Escrituras com a instituição eucarística, mas
creio estarem profundamente ligados, como podemos observar na última ceia.
Jesus tomou o pão e disse: “Tomai e comei, isto é o meu corpo”. Depois, pegando
no cálice, disse: “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue.” O Senhor
afirmou de forma enfática: “Na verdade, na verdade vos digo que, se não
comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida
em vós mesmos.” (João 6:53).
Tudo
aquilo que nos é dado a conhecer nas Escrituras leva-nos a crer que a Ceia do
Senhor é algo demasiado sério para que seja praticado de forma, por vezes,
leviana e, em muitos casos, inadequada. Na noite em que foi traído, Jesus tomou
pão e ofereceu corpo, tomou vinho e ofereceu sangue. No entanto, domingo após
domingo, os sacerdotes oferecem unicamente corpo aos seus leigos, ficando o
verdadeiro e completo sacramento só para eles, visto que têm exclusividade
sobre o vinho, contrariando desta forma a ordem de Jesus: “Bebei dele todos.” O
sacramento só é real quando correctamente ministrado. Por outro lado, existem
alguns grupos de Cristãos que usam correctamente os elementos pão e vinho, mas
negam a presença real do corpo e sangue do Senhor, por se tratar apenas de uma
ordenança e um memorial. Compreendo que para a nossa mente humana e carnal seja
difícil aceitar que o corpo e o sangue de Jesus possam estar presentes na
celebração eucarística, mas naquilo em que a nossa razão é contrariada é uma
boa oportunidade para fazermos uso da fé.
Pode
alguém questionar: “Como podemos ter hoje comunhão com o corpo e sangue do Senhor
se ele já morreu há tanto tempo?” Se os discípulos tomaram corpo e beberam
sangue, mesmo antes que Jesus fosse sacrificado, muito mais nós, uma vez que Cristo
já foi morto. Isto é um mistério que pertence a Deus, o qual devemos aceitar e
não deturpar, dando a entender que os elementos são apenas símbolos e que o
acto é apenas um memorial e nada mais. O apóstolo São Paulo escreve o seguinte:
“Falo como a entendidos; julgai vós mesmos o que eu digo. Porventura o cálice
de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que
partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Coríntios 10:16).
Estava
certo dia a conversar com um membro de uma igreja ortodoxa, quando ele disse
algo que me deixou a pensar e que se tornaria para mim na definição mais
simples e compreensível do que é o sacramento do altar: “Na mesa do Senhor
existem quatro elementos: pão, vinho, corpo e sangue.” Isto está em perfeita
harmonia com a citação do apóstolo S. Paulo atrás mencionada. No século XVI o
Dr. Martinho Lutero dizia que junto com o pão e o vinho tínhamos real comunhão
com o corpo e sangue de Cristo.
Sou
apenas um leigo e não pretendo ser juiz de ninguém, muito menos da Igreja do
Senhor. Apenas me deleito em meditar na Sua Palavra que é “lâmpada para os meus
pés e luz para o meu caminho” (Salmos 119:105). Também é “viva e eficaz, e mais
penetrante do que espada alguma de dois gumes, e é apta para discernir os
pensamentos e intenções do coração. E não há criatura alguma encoberta diante
de Deus; antes, todas as coisas estão nuas e patentes, aos olhos daquele a quem
temos de prestar contas.” (Hebreus 4:12,13).
A igreja Cristã do presente tem subestimado em larga
escala o valor eucarístico da ceia, quase à semelhança do que acontecia na
igreja de Corinto, conforme lemos na carta que Paulo lhes escreveu: “Nisto,
porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para
melhor, senão para pior. Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na
igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio. E até importa que haja
entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós. De
sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor. Porque,
comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e
outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou
desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi?
Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos
ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo
dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido
por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear,
tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei
isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que
comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que
venha. Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor
indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o
homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come
e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o
corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos
que morrem.” (1 Coríntios 11:17-30).
A
ceia do Senhor é toda ela envolta em mistério e riqueza espiritual, sendo um
memorial e, ao mesmo tempo, palavra viva e alimento que aumenta a nossa fé,
trazendo remissão de pecados, conforme Mateus 26:28. Acho que deveríamos
aproveitar esta época quaresmal para reflectirmos profundamente sobre aquilo em
que cremos e praticamos, examinando-se cada um a si mesmo, e apelo em especial
aos líderes religiosos, que maior responsabilidade têm, para que não entrem em
condenação e sejam culpados do corpo e do sangue do Senhor.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


