quarta-feira, 28 de maio de 2014

O sábio mestre

Certo dia, perturbado com as minhas inquietações, consultei o sábio mestre, perguntando-lhe o que ele entendia por silêncio e invisibilidade. Olhou-me nos olhos como quem vê o que está para além da linha do horizonte, e respondeu-me com duas intrigantes perguntas, dizendo: “Meu filho, quantos surdos conseguem entender aquilo que não queres ouvir? E quantos cegos conseguem enxergar o que não queres ver?” Simplesmente emudeci, e pude perceber que a autopiedade e o egocentrismo, muitas vezes nos impedem de ver a miséria que nos rodeia, e de ouvir o clamor dos que sofrem mais do que nós.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O Homem, também, é carne

“Não contenderá o meu Espírito para sempre com o Homem; porque ele, também, é carne.” Gn 6:3
Consultei diferentes versões da Bíblia, sobre este texto das sagradas escrituras, mas o meu favoritismo recaiu sobre a versão revista e corrigida de João Ferreira de Almeida, não por causa do tradutor em si, mas sim pela abordagem detalhada das duas naturezas que compõem o ser humano. Não sou da opinião que a diferentes versões bíblicas, se opõem ou se contradizem, mas creio que algumas são mais claras e outras mais completas em seus textos, sem no entanto adulterarem o contexto geral do Livro Sagrado.
Para além do termo carne, também se referir à nossa realidade física, regra geral ele aparece na Bíblia, no sentido de que o ser humano tem uma inclinação natural para o mal, ou simplesmente significa fragilidade, conforme afirma Jesus: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação: na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” MT 26:41. Também no livro dos Salmos lemos o seguinte: “Mas Deus, que é misericordioso, perdoou a sua iniquidade, e não os destruiu; antes, muitas vezes desviou deles a sua cólera, e não deixou despertar toda a sua ira. Porque se lembrou de que eram carne, um vento que passa e não volta.” Sl 78:38, 39.
O texto bíblico de referência deixa bem claro o desalento do criador, a sua decepção em relação ao Homem que criou chegou ao extremo, e ao olhar para ele, somente via que a maldade se multiplicava, e que toda a imaginação dos pensamentos do seu coração era só má continuamente. E arrependeu-se de haver feito o Homem, e isto pesou-lhe em seu coração. Gn 6:1-6
Até então, segundo os registos bíblicos genealógicos, a média de vida do ser humano era muito alta, muitos homens viveram mais de novecentos anos, sendo Metusala o recordista, o qual era filho de um homem que se destaca em toda a genealogia pela sua breve existência, Henoch, apenas 365 anos, e não havendo registo da sua morte, dele está escrito o seguinte: “E andou Henoch com Deus; e não se viu mais; porquanto Deus para si o tomou.” Gn 5:24. Certamente este homem não conseguia enxergar mais nada na vida, ao ponto de Deus concluir que seria uma perca de tempo esperar que ele morresse, e assim permitiu que Henoch caminhasse com Ele até que se perdeu de vista. Algo de semelhante, também se passou com o profeta Elias muitos anos mais tarde. II Reis 2:1-11
Algo leva-me a pensar que a longevidade do ser humano era uma tentativa do criador, no sentido de que o homem tivesse tempo para se redimir, ou no mínimo ter a mesma atitude de Henoch, que não desgrudava do seu Senhor e alcançou testemunho de que agradara a Deus. Hb 11:5.
Agora sobre o texto inicial, importa realçar, que a maioria das traduções só transmite uma ideia, por exemplo: “Meu Espírito não permanecerá no Homem, pois ele é carne.” – Bíblia de Jerusalém. Não vou proteger o Homem por muito tempo. Ele é mortal.” – Versão ecuménica. “O meu Espírito não permanecerá indefinidamente no Homem, pois o Homem é carne.” – Missionários capuchinhos, edição de 1978. “O meu Espírito não continuará a ser desonrado pelo Homem, visto que todo ele é mau.” – O Livro – a Bíblia para Hoje, etc.
Aqui neste texto, João de Almeida destaca-se, através dos detalhes do seu texto dizendo: “Porque ele, o Homem, também é carne. E assim surge a dupla ideia de que o Homem não é somente carne.
Também no evangelho de S. Mateus, Jesus transmite-nos a mesma ideia: “E tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; e, chegando-se a ele o tentador disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães. Ele porém respondendo disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o Homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.” MT 4:2-4
A nossa realidade física não deve ser subestimada, no entanto é passageira e de pouco sentido se negligenciarmos a nossa realidade espiritual.
Muitas vezes devido à nossa ignorância, fazemos afirmações como esta: o mais importante é ter saúde! Pois sem ela não se pode trabalhar, se não trabalharmos, não produzimos, se não produzimos, também não colhemos, se não colhemos, não temos alimento, e sem alimento o corpo debilita-se e adoece, e assim torna-se um ciclo vicioso, como se fôssemos um cachorro correndo atrás do seu próprio rabo, andando em círculos contínuos sem nunca sair do mesmo lugar. Através da sua experiência no deserto, Jesus dá-nos um choque de lucidez, Ele também era homem sujeito às mesmas carências e tentações que todos nós. Hb 4:15 E mesmo assim ao fim de quarenta dias de jejum só pôde reconhecer que o único alimento do qual o Homem não pode prescindir, é toda a palavra que sai da boca de Deus.
Duvido muito que certos cristãos levem isto a sério, trabalha-se seis e a sete dias na semana, quase nunca se põe os pés numa igreja, lêem-se muitos livros, jornais e até certas revistas de conteúdo duvidoso, mas a Bíblia despreza-se e por causa disto se fazem outras afirmações, como por exemplo: o que está para lá da morte é um mistério que ninguém sabe, muitos já partiram deste mundo, mas nunca nos vieram trazer notícias do outro. Nem é de estranhar que assim se pense, pois o único livro que fala com verdade do que se passa para além da fronteira da morte é a Bíblia, não pode nem deve ser ignorada, não deve ser apenas um objecto decorativo preenchendo um lugar vago nas nossas bibliotecas privadas, que de quando em quando se pega nela apenas para limpar o pó.
Através do seu servo Moisés, Deus fala ao seu povo de Israel o seguinte: “Ouve, Israel, o Senhor, teu Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, tem Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as intimarás aos teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão e te serão por testeiras entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas portas.” Deut 6:4-9
Por tudo isto, só podemos concluir que a palavra de Deus é alimento completo e integral, espiritualmente aconselhável a todas as idades, deve ser habilmente regurgitada aos nossos filhos, como poesia deveria fluir dos nossos lábios, quer no aconchego dos nossos lares, quer caminhando ou trabalhando. Como a brisa da noite conforta-nos ao deitar, quando nos levantamos é estimulante como o orvalho da manhã. Transforma o nosso egoísmo em gestos de amor e solidariedade e no nosso semblante aumenta o brilho do nosso olhar.
Nos umbrais das nossas casas e nas suas portas, a palavra do Senhor, deveria ser gravada, para que dela nunca nos esquecêssemos, nem das misericórdias do nosso Deus.
O Homem não é somente carne, por isso carece de toda apalavra que sai da boca de Deus.

Disse H. Greeley: “É impossível escravizar mental ou socialmente um povo que leia a Bíblia.”

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O Clamor de Deus

Clama a mim, e responder-te-ei, e anunciar-te-ei coisas grandes e firmes, que não sabes. Gr 33:3.
As posições parecem terem-se invertido, o povo já não mais buscava a Deus para obter misericórdia e orientação, mas é o Senhor que através do profeta Jeremias, incentiva o povo a reconsiderar a sua situação espiritual, clamando para que o busquem, porque quer anunciar-lhes coisas grandes e firmes que eles desconhecem.
Por mais que me esforce, a frustração de Deus em relação ao ser humano, está para além da minha compreensão, pois ela é imensa, pois já nada era mais como no princípio, o ser criado adulterara por completo os seus propósitos. O Todo Poderoso ao concluir a sua obra disse: “Eis que tudo é muito bom.” Gr 1:31.
Na verdade tudo se relacionava na perfeição, a harmonia existente entre criador e criatura era tal que nem se percebia a diferença entre os seres, na realidade o ser criado era conforme a imagem e semelhança daquele que o criou. Mas certo dia aquela rotina amistosa e paradisíaca foi quebrada, e o caus instalou-se, porque uma voz estranha se fez ouvir no Éden, que ardilosamente levou os nossos antepassados a transgredirem a ordem do seu Deus, e aquilo que a princípio parecia agradável aos olhos e desejável para dar entendimento, fez com que os nossos primeiros pais temessem Aquele que os amava acima de toda a criação. Aqui pela primeira vez o criador sentiu a frustração de um encontro anulado e a necessidade de perguntar: “Adão onde estás?”
Ao longo de toda a história, Deus sempre se empenhou em estabelecer um relacionamento amistoso com o ser humano, e estou certo de que o seu empenho não ficou limitado à era Bíblica, ele estende-se até nós e na oração que Jesus ensinou (o Pai nosso), fica claro que a mais soberana demonstração daquilo que Deus pretende, é um relacionamento íntimo, contínuo e com direito de exclusividade.
O clamor de Deus, vem muito a propósito para o nosso tempo, estamos a viver tempos difíceis a todos os níveis, o mundo parece ter entrado num beco sem saída e clama por uma resolução que o liberte. Disse G. Washington: “é impossível governar corretamente o mundo, sem Deus e sem a Bíblia.”
Estão-se a esgotar todas as hipótese e soluções, o mundo não sabe mais para que lado se virar e à semelhança daquilo que aconteceu no tempo do profeta Jeremias, Deus certamente está a procurar alguém que pratique a justiça e busque a verdade para que possa usar de misericórdia e perdão e assim revelar a sua grandeza, mas infelizmente muitas vezes só o buscamos como último recurso, ou para proveito próprio.
Não são raras as vezes em que a Santa palavra de Deus nos adverte seriamente para que sejamos modestos no que diz respeito às coisas concernentes a esta vida. Disse Jesus: “Não andeis cuidadosos, quanto à vossa vida, mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas as coisas vos serão acrescentadas. MT 6. Mas no que respeita às coisas espirituais e verdadeiras, incita-nos a que nos cheguemos a Deus com confiança dizendo: “Pedi e dar-se-vos-á, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á; porque qualquer que pede, recebe e quem busca acha; e a quem bate, abrir-se-lhe-á.” Lc 11:9,10.
“Buscai ao Senhor, enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto, porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos” – diz o Senhor. “Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos que os vossos caminhos e os meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos.” Is 55:6-9.
Mas no entanto o ser humano é propenso a inverter as prioridades. Certo dia reclamou Jesus daqueles que o seguiam dizendo: “Na verdade me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque que comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque a este, o Pai, Deus, o selou.” Jo 6:26, 27.
O contexto histórico em que Jesus viveu, era caótico, o povo Judeu havia perdido a sua identidade como nação, pois estava sob o domínio romano, já havia alguns séculos que estavam sem profeta, os líderes religiosos haviam-se corrompido e dividiam-se em algumas fracções, cada qual pensando e interpretando as escrituras segundo as suas conveniências, por isso até mesmo o povo não conseguia enxergar algo mais do que o ventre, estabilidade política, económica e social.
Jesus veio mesmo a propósito, parecia ser mágico, multiplicava pães e peixes, transformava água em vinho, curava todo o tipo de enfermidades, expulsava demónios e ressuscitava mortos, o que mais poderiam desejar, a não ser que ele fosse coroado rei e tudo seria perfeito. Até mesmo dois dos seus discípulos estavam tão entusiasmados, que queriam sentar-se, um à direita e outro à esquerda de Jesus no seu reino.
Para nós seres humanos, na verdade, os milagres, as curas, as expulsões demoníacas e as ressurreições, são coisas grandes e até devemos considerá-las e estar gratos e louvar o criador por tudo isso, mas para Ele, todas estas coisas são pequenas e temporais, porque os seus pensamentos e os seus caminhos são muito mais excelsos.
Actualmente muitos cristãos, infelizmente, pouco divergem do antepassado povo Judeu contemporâneo do Mestre da Galileia. O que os motiva quando se deslocam aos sumptuosos santuários, para além de se invocar outros deuses que não o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo? Com que objectivo alguns procuram centros de ajuda espiritual e outros curandeiros e bruxos? Certamente coisas demasiado pequenas e temporais. Dá-se ouvidos a outras vozes e não se consulta a Santa Bíblia. Busca-se muito mais o proveito próprio do que a glórias do Altíssimo Deus.
“Clama a mim e responder-te-ei”, é uma promessa também válida para os cristãos de hoje, se tão somente formos capazes de praticar a justiça e buscar as verdades eternas. Infelizmente na maioria dos casos somos religiosos frustrados, contentando-nos com as míseras migalhas que o inimigo oferece disfarçado de anjo.
Apropriadamente escreve o apóstolo Tiago: “Cobiçais e nada tendes, e nada tendes porque nada pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.” Tg 4:2,3.
Coisas grandes e firmes são aquelas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu e que jamais subiram ao coração humano, essas mesmas são as que Deus preparou para aqueles que o amam. “Porque nos são reveladas pelo seu Espírito que penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus.” I Cor 2:9,10.

A sua avaliação não pode estar sujeita ao critério dos homens, mas unicamente ao padrão Divino.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Fazei prova de mim, diz o Senhor

É de louvar todo aquele, que, com equidade faz bom uso do espírito crítico e com sabedoria analisa todo o conteúdo tanto daquilo que vê, ouve ou lê, pois quem assim procede, prudentemente a si mesmo se conduz e dificilmente será um tropeço para o seu semelhante.
O próprio apóstolo S. João aconselha-nos: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo”. I João 4:’7.
Também o rei David, num dos seus salmos nos exorta: “Provai e vede que o Senhor é bom”. Salmo 34:10. No contexto do salmo o rei é específico aos nos incitar a que façamos uso consciente e ousado da nossa aptidão natural de questionar. No entanto, supera todas as expectativas, quando é o próprio Deus a lançar-nos o desafio: “Fazei prova de mim”. Malq; 3:10.
É tranquilizador saber que o criador do universo não se ofende com as nossas questões e dúvidas, nem tão pouco nos despreza por isso. Creio a indiferença ser um dos piores inimigos do ser humano, ela opõe-se directamente a Deus, é como diz a escritura: “Assim porque és morno e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” Apoc 3:1.
Certamente Deus agrada-se daqueles que fazem prova dele, pois mostram claramente, que não estão buscando algo que seja do imaginário humano.
Durante o período quaresmal, escrevi uma série de artigos, todos eles centralizados na pessoa de Deus e no seu filho Jesus Cristo, nos quais creio piamente, mas creio ser oportuno respeitar quem não seja tão crédulo e vestir sua pele, estimulando-o a fazer bom uso da razão.
Vou citar apenas alguns exemplos: o Sr. Augusto Cury é psiquiatra, psicoterapeuta, cientista e escritor, certamente muitos dos seus livros são conhecidos dos leitores do DI, assim como alguns exemplares fazem também parte da minha colecção pessoal e muito contribuíram para a formação daquilo que sou hoje.
O ser humano é dotado de inteligência e capacidade de raciocínio, por isso não se deve acomodar àquilo que sempre creu, nem refutar tudo o que ouve sem que antes o examine.
O Sr. Cury é um verdadeiro exemplo de alguém que é honesto consigo próprio, era ateu por convicção e um dia decidiu provar ao mundo, através dos próprios evangelhos, que Jesus Cristo era uma fraude, um embuste fruto do imaginário humano, para surpresa sua, ao fazer uma profunda análise à mente de Cristo, conforme descrita nas suas biografias, chegou à brilhante conclusão: “é impossível à mente humana conceber tal personagem!”.
Hoje este cientista e escritor é um grande divulgador do Homem que revolucionou o mundo com a sua doutrina, e confessa que a ciência ainda é uma criança ao negligenciar um estudo profundo à sua inteligência.
De nós cristãos, o Homem de Nazaré é digno de algo muito mais sublime do que uma simples religiosidade aparente, deveríamos ser um pouco mais inteligentes na devoção que prestamos àquele que é o criador de todo o universo.
Há alguns séculos atrás, um jovem sacerdote chamado Martinho Lutero, inconformado com a sua religiosidade, abalou o mundo e a igreja, porque ousou experimentar Deus. Naquela época estava instalado o reino das trevas, a leitura da Bíblia era proibida, as missas eram oficiadas em latim, que só o clero entendia e havia a chamada “santa inquisição” que se incumbia de silenciar todo aquele que ousasse discordar da “santa madre igreja”. Este homem foi incompreendido e perseguido, e por pouco escapou às santas fogueiras.
Enquanto exilado, protegido por um príncipe traduziu a Bíblia para a língua do povo e foi pioneira na imprensa tão recentemente inventada. As escrituras, que até então eram desconhecidas, passaram a ser o livro texto nas escolas e desta forma uma revolução espiritual propagou-se no centro da Europa de forma tal, que ainda hoje pela graça de Deus sentimos seus efeitos.
Um outro personagem que me encanta é o apóstolo S. Paulo que antes de se converter chamava-se Saulo. Era homem de profundas convicções e de cego zelo religioso, perseguira a igreja de Cristo com todas as suas forças e certo dia obtendo mandatos de captura, dirigiu-se para Damasco afim de prender todos quantos pertencessem à seita do Nazareno, mas ao chegar perto da cidade um resplendor o cercou subitamente vindo do céu e caiu por terra, aí ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo porque me persegues?” e ele disse ”Quem és Senhor?” e disse o Senhor: “Eu sou Jesus a quem tu persegues.” Actos 9:3-6.
S. Paulo era homem de fervor religioso cego, não se questionava, estava tão certo daquilo em que acreditava, que todo aquele que não pensasse da mesma forma, era um alvo a abater, mas ao ser confrontado com o Senhor da glória rendeu-se.
Gastou o resto da sua vida servindo a igreja e o seu Senhor que antes perseguia, foi perseguido e acabou os seus dias numa prisão até que foi morto.
Estes são apenas alguns exemplos de homens que se confrontaram com uma realidade superior à deles, não se convenceram, mas foram convencidos de que a realidade da sua existência estava dependente de outra realidade que não é mitológica.
Não foi o Homem quem inventou Deus, nem tão pouco através da religião ele consegue reconciliar-se com Ele, mas é Deus que em Cristo reconcilia o ser humano com o seu Criador.
Ao contrário dos deuses mitológicos, o nosso Deus é real, em Cristo torna-se visível e palpável, quer que o amemos com todo o nosso coração, com todas as nossas forças, mas também com todo o nosso entendimento, pois a sua essência é o amor. I Jo 4:8.
O nosso Deus pode parecer complexo, mas na verdade é tão simples e acessível como o é Jesus, manso e humilde de coração, o seu jugo não é pesado e o seu fardo é leve e amorosamente nos convida: “vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” MT 11:28.

Fazei prova de mim, diz o Senhor. Embora o contexto actual seja diferente daquele em que viveu Malaquias, o desafio de Deus propaga-se no tempo e chega até nós. O mundo está cheio de religião, mas Deus está buscando homens e mulheres que em meio às provações possam dizer como o patriarca Job: “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne verei Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, e os meus olhos e não outros o verão.” Job. 19:25-27.

domingo, 20 de abril de 2014

Eu sou a ressurreição e a vida


Na noite em que Jesus celebrou a última ceia pascal, disse aos seus discípulos: “Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça; porque vos digo que não a comerei mais, até que ela se cumpra no reino de Deus.” Lc 22:15, 16.

Esta festa anual já era praticada pelo povo hebreu desde o tempo em que fora liberto por Deus com mão forte através do seu servo Moisés, da escravatura no Egipto. Páscoa é um termo hebraico que significa passagem e nesta grande festa o povo anualmente comemorava a grande vitória, ou seja, a passagem de uma condição de escravos, para uma nova realidade de seres livres numa terra abundante, onde Deus era o único ser supremo.

A partir da ressurreição de Cristo a Páscoa adquiriu um novo sentido, passou a significar para nós cristãos, a vitória de Jesus sobre o diabo, o pecado e a morte, assim como a nossa libertação do mundo das trevas e do inferno, tornou-se assim a nossa passagem da condição de pecadores oprimidos pelo diabo com destino à condenação eterna, para a nova realidade de cidadãos do reino dos céus.

Infelizmente, hoje, apesar de a Páscoa ser a mais importante festa da cristandade, os cristãos de forma generalizada não lhe atribui o verdadeiro significado. Com o passar dos tempos foi-se tornando mais uma festa, assim como o Natal, é mais um motivo comercial e de encontro entre familiares e amigos.

Faz parte da cultura cristã, nesta época falar-se da ressurreição, as pessoas afluem aos grandes templos parecendo devotas, mas no fundo o único facto em que acreditam é que a morte e a sepultura são o fim mais certo.

Os cristãos têm-se tornado racionalistas e a ressurreição é algo que contraria a nossa lógica, é cientificamente improvável, mas como a ciência é um progressivo acumular de conhecimentos, com o passar dos anos ele vai caducando e necessita constantemente de ser actualizada, por isso resta-nos apenas acreditar nas escrituras sagradas, que através dos séculos têm resistido a todo o tipo de provações até mesmo àqueles que deturpam os seus ensinos.

Todo o ser humano tem consciência de que o colapso existencial é inevitável, no entanto luta desesperadamente para retardar o mais possível esse facto, temos consciência da nossa existência, mas o fim dela parece-nos absurdo.

Actualmente falar de ressurreição convictamente, certamente corre-se o risco de se ser motivo de chacota à semelhança daquilo que aconteceu com o apóstolo S. Paulo: “E como o ouviram falar da ressurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disto te ouviremos outra vez.” Actos 17:32. Isto aconteceu em praça pública, mas o mesmo apóstolo teve maiores problemas dentro da própria igreja e escreveu o seguinte: “Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns de entre vós que não há ressurreição de mortos? E se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou; e, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé… e ainda permaneceis nos vossos pecados; e os que morreram em Cristo estão perdidos. Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens e nos constituímos falsas testemunhas de Deus.” I Cor 15:12-19.

Se subtrairmos ao cristianismo a ressurreição dos mortos resta-nos apenas uma forma religiosa de estar na vida como tantas outras, que segundo Paulo é a mais miserável de todas, pois que não está cumprindo com o seu verdadeiro objectivo que é a esperança de vida eterna.

Apesar da ressurreição de Cristo pertencer à esfera da fé, isso não significa que ela seja fruto do imaginário humano, nem aconteceu num beco qualquer, escreve o grande apóstolo dos gentios: “Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as escrituras, e que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive, ainda, a maior parte… Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E, por derradeiro de todos, me apareceu também a mim, como a um abortivo. Porque sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus.” I Cor 15:3-9.

O maior personagem de toda a história da humanidade, dedicou os seus últimos três anos de vida a um único ideal: morrer e ressuscitar. Desde muito cedo começou a mostrar aos seus discípulos, que convinha ir a Jerusalém, e padecer muito dos anciãos, e dos princípios dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia. Mt/6:21.

Tudo isto Jesus falou e no que diz respeito à sua pessoa, tudo se concretizou e deu provas concludentes de que o seu ideal não era fruto de um imaginário masoquista. No dia da ressurreição apresentou-se no meio dos seus discípulos e disse: “Paz seja convosco. E eles espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito. E Ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos aos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo: apalpai-me e vede; pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. E dizendo isto mostrou-lhes as mãos e os pés. E não o crendo ainda, por causa da alegria, e estando maravilhados disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa de comer? Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado e um favo de mel. O que Ele tomou e comeu diante deles. Então abriu-lhes o entendimento, para compreenderem as escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dos mortos, e em seu nome se pregasse o arrependimento e remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém. E destas coisas sois vós testemunhas.” Lc 24:36-48.

Perante tudo o que Jesus viveu, falou e os seus discípulos presenciaram, mesmo assim não há como provar o facto da ressurreição, e por incrível que pareça creio que nem mesmo o próprio Jesus está preocupado com isso. Tomé, o discípulo duvidoso que afirmou crer somente quando tivesse provas palpáveis, recebeu a seguinte reprimenda: “não sejas incrédulo, mas crente. Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.” João 20:27, 29.

Estamos em tempo de Páscoa, certamente muitos de nós cristãos temos muitas dúvidas quanto à nossa fé, mas Jesus quer deixar-nos uma mensagem de esperança, assim como o fez a Marta, irmã do defunto Lázaro, dizendo: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim nunca morrerá. Crês ter isto?” João 11:25,26.

Caro leitor o futuro da nossa existência depende somente da resposta que tivermos para dar a esta pergunta de Jesus.

Feliz Páscoa!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A Paixão de Cristo


Diz um velho ditado: “Dos fracos não reza a história.” Pelo contrário, são ignorados, esquecidos, marginalizados, oprimidos, escravizados, odiados e subestimados, como se de inúteis de tratassem. No entanto, são estes mesmos que enriquecem a muitos e são a causa da glória de outros, tendo a ingratidão como recompensa. A nossa história está repleta de grandes personagens que concretizaram enormes feitos: travaram colossais batalhas, realizaram colossais conquistas, traçaram rotas marítimas, povoaram ilhas, deram novos mundos ao mundo, enfim, um pequeno país com uma grande história escrita com o sangue de muitos fracos que, por força das circunstâncias, não tinham opção de escolha. Em suma, os grandes deste mundo, os fortes e os “todo-poderosos” só conseguiram fazer alguma coisa que ficasse na história dominando, subjugando e servindo-se dos mais fracos, e ainda hoje se continua a escrevê-la nos mesmos moldes.

Há muito tempo atrás um carpinteiro de Nazaré também fez história, dividiu a história e deu um novo rumo à história de muitos fracos, pois ele não esmagará a cana quebrada e não apagará o morrão que fumega até que faça triunfar o juízo. Este homem tem inspirado poetas e escritores, compositores, pintores e até cineastas, como é o caso de Mel Gibson que, a meu ver, foi muito feliz na produção do filme “A Paixão de Cristo”, trazendo para os ecrãs todos os pormenores das últimas doze horas da vida de Jesus. Impressionou muitos que estavam habituados a contemplar a cruz vazia, bem adornada, e que quase se esqueciam de que um dia ela estivera manchada com sangue inocente. A outros provocou revolta por acharem que foi exibida demasiada violência gratuita. É compreensível que seja chocante presenciar de forma condensada tudo aquilo que o Filho de Deus teve que passar ao longo de várias horas. Mas é um facto, o ser humano é de memória curta e propenso a esquecer-se facilmente que o novo rumo da sua história teve um preço muito alto.

O apóstolo S. Paulo, no início da sua epístola aos Coríntios, demonstra de forma bem clara a sua preocupação: “Os judeus pedem sinal e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos (…) nada me propus saber, entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado (1 Coríntios 1:22, 23; 2:2). Já ouvi várias opiniões a respeito do sofrimento de Cristo. Há quem ache que a crucificação de Jesus foi idêntica a tantas outras que eram comuns na época e que o seu maior sofrimento foi espiritual e não físico, porque se condoía muito por causa do pecado da humanidade. Outros dizem que o que Jesus mais temia era o abandono do Pai, pelo facto de haver exclamado: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Lamento muito que os Cristãos pensem assim, limitando-se a olhar apenas para algumas situações, não analisando bem de perto as palavras e as circunstâncias em que tudo se passou. É verdade, Jesus não foi o único a ser crucificado, muitos o foram antes e depois dele, mas por se tratar de uma condenação fraudulenta todo o seu processo penal não teve o mesmo desenrolar dos demais condenados, como se pode facilmente depreender ao lermos o que se passou desde o momento em que foi preso até ao suspiro final. 

O próprio Jesus disse aos seus discípulos: “Convém ir a Jerusalém e padecer muito dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes e dos escribas e ser morto” (Mateus 16:21). Na verdade Jesus sofreu muito por causa do pecado, mas no seu corpo, como nos relata o profeta: “Como pasmaram muitos à vista dele, pois o seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e olhando nós para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais indigno entre os homens, homem de dores, e como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” (Isaías 53). Quanto ao brado de Jesus na cruz, através do qual alguns afirmam que ele foi abandonado pelo Pai por ter assumido sobre si o pecado de toda a humanidade, o qual Deus não pode suportar, questiono-me em que momento isso terá acontecido. Durante todo o seu ministério, Jesus relacionou-se com o Pai da forma mais íntima e natural, sem qualquer tipo de impedimento e fico com a ideia de que a partir do momento em que subiu à cruz essa intimidade se tenha tornado mais profunda. É da cruz que ele pede: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.” É da cruz que ele diz ao malfeitor, confiante: “Hoje estarás comigo no paraíso.” É da cruz que ele exclama bem alto: “Está consumado”, e: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito.” A única diferença que encontro no Cristo crucificado é que antes ele se retirava e passava longos momentos a sós com o Pai em oração, pois não era como os hipócritas que gostavam de orar nas esquinas das ruas para serem vistos. Agora, Jesus estava limitado e exposto à vergonha. O seu único conforto era saber que o Pai estava suficientemente perto para o ouvir.

No livro de Génesis temos um relato similar. Deus pediu a Abraão que oferecesse o seu filho Isaac em holocausto numa montanha da terra de Moriá e, “dirigindo-se para lá, edificou Abraão um altar e pôs em ordem a lenha e amarrou seu filho Isaac, e deitou-o sobre o altar, em cima da lenha. E, ao tomar o cutelo para imolar o seu filho, um anjo bradou do céu: Não faças mal ao moço, porquanto agora sei que temes a Deus” (Génesis 22). Comparemos com a seguinte escritura: “Deus amou o mundo de tal maneira que Deus o seu Filho unigénito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16). Abraão ofereceu o seu filho a Deus e Deus ofereceu o seu Filho ao mundo. Assim como Abraão acompanhou Isaac até ao momento do holocausto, também creio que o Pai de Jesus não procedeu de outra forma, pois ambos eram cúmplices no plano da redenção da humanidade. Quando Jesus clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, o desabafo não foi de Filho para Pai, mas sim de homem para Deus. O homem, semente da mulher, conforme Génesis 3:15, o varão de dores, que no auge do suplício sentiu-se só, não pela ausência de Deus, mas por causa do juízo que este fez cair sobre ele.

Tenho boas razões para acreditar que Deus jamais pensou em abandonar o seu Filho, fosse qual fosse a circunstância. Quando, por três vezes, Jesus orou: “Meu Pai, se é possível passa de mim este cálice”, a sua alma estava cheia de tristeza até à morte, a angústia apoderou-se dele e, embora Deus não pudesse atender à sua oração, enviou um anjo para o confortar. Não gosto de classificar o sofrimento de Jesus. Ele era humano e, como tal, sofreu em todos os aspetos. No espírito sofreu por antecipação o cálice que estava por vir, ao ponto de agonizar de forma tal que o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue que corriam até ao chão. Isto só demonstra que o que estava pela frente era algo infernal.

Por mais que ofensas nos magoem e certas palavras nos firam, a dor física é a que mais tememos e evitamos, e Jesus não foi exceção, simplesmente não teve como evitá-la. O Filho de Deus foi o único que conseguiu fazer história sem derramar sangue alheio. Enalteceu o fraco, humilhou o forte, cumpriu todo o propósito divino e desfez, no seu corpo, todas as obras do diabo.
 
 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A Ceia do Senhor

“Santa Ceia”, “Comunhão”, “Ceia do Senhor”, são algumas das designações usadas para definir aquilo a que alguns também chamam de “Sacramento do Altar”. Não me preocupa os termos usados para descrever este memorial, mas sim aquilo que se crê a respeito dele e a forma como o praticamos.
Na minha opinião é lamentável e muito preocupante que, em nosso tempo, estejamos tão aquém das expectativas de Deus no que diz respeito à instituição eucarística de Cristo. Toda a sua vida foi em função do sacrifício expiatório. Disse Jesus: “Desejei muito comer convosco esta Páscoa antes que padeça” (Lucas 22:15). Algum tempo antes de estabelecer a ceia, Jesus proferiu um discurso que alguns discípulos classificaram de muito duro e insuportável de se ouvir: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. Quem come a minha carne, e bebe o meu sangue, tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne, e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.” (João 6:51-56).
Há quem não relacione este texto das Escrituras com a instituição eucarística, mas creio estarem profundamente ligados, como podemos observar na última ceia. Jesus tomou o pão e disse: “Tomai e comei, isto é o meu corpo”. Depois, pegando no cálice, disse: “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue.” O Senhor afirmou de forma enfática: “Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos.” (João 6:53).
Tudo aquilo que nos é dado a conhecer nas Escrituras leva-nos a crer que a Ceia do Senhor é algo demasiado sério para que seja praticado de forma, por vezes, leviana e, em muitos casos, inadequada. Na noite em que foi traído, Jesus tomou pão e ofereceu corpo, tomou vinho e ofereceu sangue. No entanto, domingo após domingo, os sacerdotes oferecem unicamente corpo aos seus leigos, ficando o verdadeiro e completo sacramento só para eles, visto que têm exclusividade sobre o vinho, contrariando desta forma a ordem de Jesus: “Bebei dele todos.” O sacramento só é real quando correctamente ministrado. Por outro lado, existem alguns grupos de Cristãos que usam correctamente os elementos pão e vinho, mas negam a presença real do corpo e sangue do Senhor, por se tratar apenas de uma ordenança e um memorial. Compreendo que para a nossa mente humana e carnal seja difícil aceitar que o corpo e o sangue de Jesus possam estar presentes na celebração eucarística, mas naquilo em que a nossa razão é contrariada é uma boa oportunidade para fazermos uso da fé.
Pode alguém questionar: “Como podemos ter hoje comunhão com o corpo e sangue do Senhor se ele já morreu há tanto tempo?” Se os discípulos tomaram corpo e beberam sangue, mesmo antes que Jesus fosse sacrificado, muito mais nós, uma vez que Cristo já foi morto. Isto é um mistério que pertence a Deus, o qual devemos aceitar e não deturpar, dando a entender que os elementos são apenas símbolos e que o acto é apenas um memorial e nada mais. O apóstolo São Paulo escreve o seguinte: “Falo como a entendidos; julgai vós mesmos o que eu digo. Porventura o cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Coríntios 10:16).
Estava certo dia a conversar com um membro de uma igreja ortodoxa, quando ele disse algo que me deixou a pensar e que se tornaria para mim na definição mais simples e compreensível do que é o sacramento do altar: “Na mesa do Senhor existem quatro elementos: pão, vinho, corpo e sangue.” Isto está em perfeita harmonia com a citação do apóstolo S. Paulo atrás mencionada. No século XVI o Dr. Martinho Lutero dizia que junto com o pão e o vinho tínhamos real comunhão com o corpo e sangue de Cristo.
Sou apenas um leigo e não pretendo ser juiz de ninguém, muito menos da Igreja do Senhor. Apenas me deleito em meditar na Sua Palavra que é “lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (Salmos 119:105). Também é “viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura alguma encoberta diante de Deus; antes, todas as coisas estão nuas e patentes, aos olhos daquele a quem temos de prestar contas.” (Hebreus 4:12,13).
A igreja Cristã do presente tem subestimado em larga escala o valor eucarístico da ceia, quase à semelhança do que acontecia na igreja de Corinto, conforme lemos na carta que Paulo lhes escreveu: “Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior. Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio. E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós. De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor. Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se. Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que morrem.” (1 Coríntios 11:17-30).

A ceia do Senhor é toda ela envolta em mistério e riqueza espiritual, sendo um memorial e, ao mesmo tempo, palavra viva e alimento que aumenta a nossa fé, trazendo remissão de pecados, conforme Mateus 26:28. Acho que deveríamos aproveitar esta época quaresmal para reflectirmos profundamente sobre aquilo em que cremos e praticamos, examinando-se cada um a si mesmo, e apelo em especial aos líderes religiosos, que maior responsabilidade têm, para que não entrem em condenação e sejam culpados do corpo e do sangue do Senhor.